Em Shepherdstown, Virgínia Ocidental, festival desafia conservadorismo com peças queer e temas atuais
Em meio às montanhas da Virgínia Ocidental, um lugar conhecido por seu conservadorismo e apoio majoritário a políticas republicanas, surge um verdadeiro oásis para a arte e a diversidade: o Contemporary American Theater Festival (CATF). Todo mês de julho, a pequena cidade de Shepherdstown, com seus 1.500 habitantes, se transforma no palco de histórias corajosas que desafiam estereótipos e abraçam a pluralidade humana, incluindo narrativas LGBTQIA+ que florescem mesmo em um território marcado pelo conservadorismo.
Shepherdstown: um refúgio inesperado para o teatro queer
Shepherdstown poderia ser apenas mais uma cidade tranquila às margens do rio Potomac, próxima a campos históricos da Guerra Civil americana. Mas o festival CATF, liderado por Peggy McKowen, traz uma vitalidade única à comunidade, atraindo amantes do teatro de todo o país, especialmente das grandes cidades vizinhas como Washington DC e Baltimore, ambas nos Estados Unidos. O evento não só celebra novas dramaturgias, como também encoraja o público a se permitir o inesperado, a experimentar peças que abordam temáticas ousadas e necessárias.
Em 2025, o mote do festival foi “histórias destemidas”, refletido em peças que transitam desde críticas ao sistema de saúde e à indústria farmacêutica até comédias românticas queer ambientadas no universo masculino dos dublês de Hollywood nos anos 1980. Um destaque foi a peça Happy Fall: A Queer Stunt Spectacular, uma comédia gay que, diante da maioria conservadora da região, demonstra a coragem do festival em amplificar vozes LGBTQIA+ em um território de forte influência trumpista.
Desafios e resistência em um estado conservador
A Virgínia Ocidental foi o segundo estado com maior percentual de votos para Donald Trump nas últimas eleições presidenciais americanas, chegando a 70%. Dentro deste contexto, Shepherdstown e seu festival cultural representam uma resistência vibrante. O CATF funciona como uma fundação independente, o que lhe confere autonomia para apostar em produções que dialogam com temas LGBTQIA+ e outras pautas progressistas, mesmo em meio a uma população majoritariamente conservadora.
Teatro como ferramenta de transformação e visibilidade
Além do apelo artístico, o festival aposta na experimentação e no desenvolvimento de novos textos, recebendo entre 100 e 150 roteiros anualmente. Essa dinâmica faz do CATF um laboratório respeitado entre dramaturgos dos Estados Unidos, que encontram ali espaço para testar suas obras em um público atento e diversificado.
A peça Side Effects May Include…, por exemplo, traz uma crítica contundente à indústria farmacêutica e ao sistema de saúde, contando a história de uma mãe enfrentando os efeitos colaterais dos tratamentos médicos. Já Unraveled narra, com música ao vivo, a vida de um contador de histórias com deficiência, ampliando o espectro de representatividade do festival.
Um modelo que inspira e sobrevive
O modelo do festival, que oferece aos artistas moradia e tempo para ensaios e apresentações, é uma raridade no cenário cultural americano atual, marcado por cortes de financiamento e encolhimento de espaços teatrais regionais. O CATF mantém viva a chama do teatro contemporâneo, servindo como ponte para que obras inovadoras alcancem circuitos mais amplos e até adaptações cinematográficas.
Para a comunidade LGBTQIA+, o festival é uma celebração e um espaço seguro de expressão em um dos territórios mais desafiadores para a diversidade. A força dessas histórias destemidas ecoa uma mensagem clara: o teatro pode, sim, ser um instrumento poderoso para a inclusão, para a resistência e para a construção de um futuro mais plural, mesmo onde menos se espera.
Que tal um namorado ou um encontro quente?


