Tema cresce nas buscas após nova repercussão sobre a tragédia de 1987 e a dúvida sobre a definição correta do acidente. Entenda.
Césio voltou aos assuntos mais buscados do Brasil neste sábado (5), em meio à nova onda de interesse sobre a tragédia de Goiânia, em Goiás, quase 40 anos depois do episódio de 1987. A alta nas pesquisas acompanha reportagens, debates e o relançamento da memória pública sobre o caso, incluindo a dúvida que muita gente ainda tem: afinal, foi um acidente radioativo ou radiológico?
Segundo técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), a resposta correta é: os dois. O episódio em Goiânia foi radiológico porque envolveu um aparelho de radioterapia abandonado, e também radioativo porque havia material radioativo em seu interior, o Césio-137. A distinção, que parece técnica à primeira vista, ajuda a entender a dimensão histórica do desastre e por que ele segue tão presente no imaginário brasileiro.
Por que o Césio está em alta no Brasil?
O assunto ganhou novo fôlego por causa da repercussão recente em torno do caso, impulsionada por produções audiovisuais e por reportagens que revisitam a tragédia, suas vítimas e suas consequências. O acidente com Césio-137 é considerado o maior desastre desse tipo fora de uma usina nuclear no mundo, o que por si só já explica sua permanência no debate público.
Em 2026, o tema voltou a circular com força também porque diferentes veículos passaram a recuperar detalhes do caso, da cronologia do acidente aos efeitos duradouros na vida de sobreviventes. A dúvida sobre a nomenclatura correta foi inclusive tratada em uma publicação da Secretaria de Estado de Saúde de Goiás, lançada em 2024, mostrando que ainda existe interesse social e educacional em esclarecer o que aconteceu.
Classificado pela Cnen como nível 5 na Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos (Ines), que vai de 1 a 7, o acidente de Goiânia difere de tragédias como Chernobyl, em 1986, e Fukushima, em 2011. Esses dois foram acidentes de nível 7 ligados a reatores nucleares danificados em usinas. Já em Goiânia, a origem foi um equipamento médico obsoleto deixado para trás.
O que aconteceu em Goiânia com o Césio-137?
O aparelho citado pelos técnicos era uma máquina de radioterapia considerada ultrapassada já naquela época. Sua fonte radioativa era de Césio-137. O equipamento ficou abandonado nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no Setor Central de Goiânia, depois que a instituição se mudou do local no fim de 1985.
Quase dois anos depois, em 13 de setembro de 1987, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves encontraram o aparelho e o retiraram dali para vendê-lo como sucata. A peça foi levada para um ferro-velho. Cinco dias mais tarde, Devair Alves Ferreira, dono de outro depósito no Setor Aeroporto, comprou o material.
Foi então que a tragédia começou a se espalhar. Durante a noite, Devair percebeu um brilho azul vindo da peça. Era o pó de Césio-137. Encantado com a aparência da substância, ele levou parte do material para casa. Nos dias seguintes, o conteúdo foi mostrado e distribuído entre parentes e pessoas próximas, sem que se soubesse o risco extremo envolvido.
O resultado foi devastador. De acordo com os dados recuperados sobre o caso, quatro pessoas morreram e mais de mil foram afetadas. Mais de 112 mil pessoas passaram por triagem e monitoramento de radiação. Entre as vítimas fatais estavam Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, e Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair, lembrada por ter desconfiado que havia algo errado quando as pessoas começaram a adoecer — atitude que ajudou a evitar uma tragédia ainda maior.
Quais marcas o acidente deixou até hoje?
Além das mortes e do trauma coletivo, o desastre gerou cerca de 6 mil toneladas de lixo radioativo, reunindo roupas, utensílios domésticos e materiais de construção retirados durante a descontaminação. Esses resíduos foram levados para depósitos em Abadia de Goiás, a cerca de 20 quilômetros da capital, onde foram enterrados e concretados.
Pesquisadores citados na cobertura do caso avaliam que, mesmo com a redução progressiva da radiação, os riscos de contaminação associados a esses resíduos só devem desaparecer totalmente após cerca de 200 anos. Isso ajuda a explicar por que o Césio-137 não é apenas uma lembrança histórica: ele continua sendo um tema de saúde pública, memória e responsabilidade institucional.
Há também um aspecto humano que não pode ser apagado. Décadas depois, vítimas e familiares seguem relatando impactos físicos, emocionais e sociais, além de queixas sobre falta de apoio médico continuado. Quando o assunto volta às buscas, não se trata só de curiosidade histórica — trata-se também de um país revisitando uma ferida aberta.
Na avaliação da redação do A Capa, a volta do caso Césio ao debate nacional mostra como memória, informação pública e cuidado com as vítimas ainda caminham juntos. Para a comunidade LGBTQ+, que conhece de perto o peso do estigma e do abandono institucional em crises de saúde, a história de Goiânia também ecoa como alerta: tragédias não acabam quando saem do noticiário. Elas continuam na vida de quem ficou.
Perguntas Frequentes
O acidente com Césio-137 foi radioativo ou radiológico?
Segundo técnicos da Cnen, foi os dois: radiológico por envolver um aparelho de radioterapia e radioativo pela presença de material radioativo, o Césio-137.
Quantas pessoas foram afetadas pelo Césio-137 em Goiânia?
O caso deixou quatro mortos e afetou mais de mil pessoas. Além disso, mais de 112 mil passaram por triagem e monitoramento de radiação.
Por que o Césio voltou a ser pesquisado agora?
O tema voltou a ganhar força por causa de novas reportagens, revisões históricas e produções audiovisuais que reacenderam o interesse sobre a tragédia de Goiânia.
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