Bianca Catbagan transforma ícone literário em símbolo de resistência e identidade LGBTQIA+
Maria Clara, a emblemática figura da literatura filipina que tradicionalmente representa a mulher idealizada sob o jugo colonial espanhol, ganha uma nova e poderosa interpretação pelas mãos da diretora filipina Bianca Catbagan, radicada em Los Angeles. Integrante do prestigioso American Film Institute Directing Workshop for Women+, Catbagan dirige o curta-metragem Royal Blood, uma obra que transforma essa personagem histórica em um símbolo de rebeldia e complexidade, explorando sua identidade sob uma perspectiva queer.
Uma nova voz para Maria Clara
Escrito pela cineasta britânico-filipina Andrea A. Walter, Royal Blood se passa nas Filipinas de 1888, ainda sob o domínio espanhol, e acompanha a relação entre Victorina e Pepay, amantes que enfrentam desafios quando Maria Clara surge em suas vidas, ameaçando a estabilidade da dupla. Inspirado no filme Dangerous Liaisons, o roteiro ressignifica Maria Clara não como a passiva e idealizada donzela da literatura clássica, mas como uma mulher perigosa, cheia de nuances e força.
Para Catbagan, o fascínio pela história vem também da herança cultural filipina pré-colonial, onde figuras como os babaylan indicam a presença histórica de identidades queer no arquipélago. “Sempre tivemos essa natureza, algo verdadeiramente filipino”, destaca a diretora, que vê no roteiro uma oportunidade para desafiar narrativas tradicionais e amplificar vozes marginalizadas.
Da Universidade das Filipinas a Los Angeles
Formada em Comunicação Audiovisual pela Universidade das Filipinas e com mestrado em Direção e Roteiro pela Universidade Columbia, Catbagan tem um olhar único para contar histórias que atravessam fronteiras. Sua trajetória começou com uma paixão infantil por atuação, despertada por um crush em celebridade, e a curiosidade pelo cinema, estimulada pelo presente de uma câmera do pai.
Hoje, ela destaca a importância do programa DWW+ do AFI, que promove a equidade de gênero na indústria cinematográfica, especialmente para diretoras e pessoas não binárias imigrantes como ela. “Para imigrantes, programas assim são essenciais para abrir portas”, afirma, ressaltando o legado de outras cineastas filipinas que passaram pelo programa.
Maria Clara na diáspora e na luta queer
A história de Maria Clara transcende o tempo e a geografia. Ela representa as dores e esperanças das mulheres filipinas sob sistemas opressivos, mas também reflete as múltiplas realidades da mulher contemporânea, seja como profissional, cuidadora ou alguém buscando aceitação em uma sociedade em transformação. O filme Royal Blood traz essa personagem para o centro da cena queer e da diáspora filipina, mostrando a busca por identidade e pertencimento em um mundo ainda marcado por preconceitos.
Ao reinventar Maria Clara, Catbagan não apenas resgata uma figura literária, mas também celebra a resistência e a diversidade da comunidade LGBTQIA+, convidando o público a refletir sobre a história, o poder e as múltiplas facetas do ser.
Essa releitura é um marco importante para a cultura filipina e para a representação queer no cinema, pois desafia estereótipos e abre espaço para narrativas mais inclusivas e autênticas. É um lembrete de que a arte tem o poder de reescrever histórias, dar voz a quem foi silenciado e inspirar transformações sociais profundas.
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