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Homofobia em debate — e o elo com a biofobia

Tema ganha força após artigo ligar violência contra pessoas LGBTQ+ à destruição ambiental em Pernambuco; entenda o conceito.
Homofobia em debate — e o elo com a biofobia

Tema ganha força após artigo ligar violência contra pessoas LGBTQ+ à destruição ambiental em Pernambuco; entenda o conceito.

A palavra homofobia entrou em alta no Brasil nesta sexta-feira (24), impulsionada por uma combinação de casos recentes de discriminação e pela repercussão de um artigo publicado em Pernambuco que aproxima a violência contra pessoas LGBTQ+ da devastação ambiental. No texto, o ecólogo Tiago Versalles usa o termo “biofobia” para descrever uma repulsa à biodiversidade e argumenta que ela nasce da mesma lógica de controle que sustenta homofobia, misoginia, racismo e transfobia.

Publicado pela Marco Zero Conteúdo, o artigo parte de uma leitura política e simbólica do avanço sobre a APA Aldeia-Beberibe, área de Mata Atlântica na Região Metropolitana do Recife. A tese central é que a tentativa de “corrigir” a natureza para adequá-la a um ideal de limpeza, ordem e lucro se parece com o impulso de enquadrar corpos, desejos e identidades que fogem à norma heteropatriarcal.

Por que homofobia está em alta agora?

O interesse pela palavra cresceu porque ela apareceu em contextos diferentes ao mesmo tempo. Além do artigo sobre biofobia, notícias sobre episódios de discriminação contra homens gays, como o caso envolvendo um procurador do Acre e um professor em aeroporto, ajudaram a puxar buscas. Quando o debate público reúne violência cotidiana e reflexão estrutural, a tendência é que o tema ganhe ainda mais alcance.

No artigo, Versalles afirma que a humanidade não é apenas ecocida, mas também biofóbica. Para ele, a biofobia seria um medo ou nojo irracional diante da vida em sua forma mais livre: a floresta úmida, os rios, os insetos, os animais silvestres e tudo aquilo que não cabe numa paisagem domesticada. Em sua interpretação, esse olhar enxerga o natural como algo “primitivo”, “sujo” ou “pecaminoso”, categorias que também foram historicamente usadas para atacar pessoas LGBTQ+, mulheres, negros e indígenas.

O que é biofobia, segundo o texto?

Na formulação apresentada, biofobia não é um conceito clínico, mas uma chave política para entender como diferentes violências se conectam. O autor sugere que existe uma raiz comum entre a destruição de florestas e a perseguição a corpos dissidentes: a recusa do diverso. Em vez de conviver com a diferença, tenta-se podar, higienizar, enquadrar ou eliminar o que escapa ao padrão dominante.

O texto cita explicitamente a homofobia, a misoginia, o racismo e a transfobia como “filhas” de uma mesma lógica histórica, associada ao patriarcado, à colonização e à visão eurocristã que marcou a formação do Brasil. Nessa leitura, a floresta vira “mato” a ser limpo; corpos LGBTQ+ viram alvos de correção moral; e comunidades racializadas e indígenas seguem tratadas como obstáculos ao chamado desenvolvimento.

Qual é o impacto ambiental apontado em Pernambuco?

A crítica do artigo se concentra na APA Aldeia-Beberibe, considerada uma área estratégica de Floresta Atlântica em Pernambuco. Segundo o texto, a região é vista por parte da sociedade recifense como espaço vazio pronto para loteamentos e obras, quando na verdade cumpre função essencial para o abastecimento hídrico.

De acordo com o autor, o rio Beberibe nasce dentro da APA Aldeia-Beberibe, e a preservação da floresta é decisiva para manter a drenagem e a oferta de água para Recife e Olinda. Ele menciona estudos do Fórum Socioambiental de Aldeia segundo os quais o desmatamento na área pode agravar uma crise hídrica para mais de 1 milhão de pessoas na Região Metropolitana do Recife, atingindo bairros da zona norte da capital e municípios como Olinda, Paulista, Abreu e Lima e Igarassu.

O artigo também afirma que o Governo de Pernambuco pretende investir R$ 150 milhões em uma intervenção ligada ao projeto da Escola de Sargentos do Exército, com impacto previsto de 200 mil árvores derrubadas na APA Aldeia-Beberibe, sobre a bacia do Catucá. Na visão do autor, isso aprofundaria danos ambientais e pressionaria ainda mais o abastecimento da região.

O que esse debate diz à comunidade LGBTQ+?

Para leitores LGBTQ+, especialmente num país em que a homofobia foi equiparada ao crime de racismo pelo STF em 2019, o debate toca num ponto sensível: a violência raramente aparece isolada. Ela costuma operar por hierarquias que definem quais vidas importam mais e quais podem ser descartadas. Quando um artigo aproxima a rejeição à biodiversidade da rejeição à diversidade humana, ele propõe uma leitura interseccional do Brasil real.

Isso não significa igualar experiências distintas, mas reconhecer mecanismos parecidos. A mesma cultura que tenta disciplinar afetos, identidades e expressões de gênero também costuma desprezar territórios, povos tradicionais e ecossistemas inteiros em nome de uma ideia estreita de progresso. Em outras palavras: combater homofobia passa, também, por questionar estruturas de poder que naturalizam exclusões.

Na avaliação da redação do A Capa, o ponto mais potente desse debate está em conectar direitos humanos e justiça socioambiental sem apagar as especificidades de cada luta. A comunidade LGBTQ+ conhece bem o preço de ser tratada como desvio a ser corrigido. Quando a destruição ambiental usa a mesma gramática da limpeza, da ordem e da eliminação do diverso, vale prestar atenção. O desafio é transformar essa reflexão em política pública, proteção territorial e defesa concreta da vida em todas as suas formas.

Perguntas Frequentes

Biofobia é a mesma coisa que homofobia?

Não. No artigo, biofobia aparece como uma ideia política sobre repulsa à biodiversidade, enquanto homofobia se refere à discriminação e violência contra pessoas LGBTQ+, especialmente gays. A aproximação é feita para mostrar uma lógica comum de rejeição ao diverso.

Por que a APA Aldeia-Beberibe é importante?

Porque a área de Mata Atlântica ajuda a proteger nascentes e bacias fundamentais para o abastecimento de água na Região Metropolitana do Recife. O texto destaca a relação direta entre preservação florestal e segurança hídrica.

Homofobia é crime no Brasil?

Sim. Desde 2019, o STF enquadra a homofobia e a transfobia na Lei do Racismo enquanto o Congresso não aprova legislação específica sobre o tema.


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