Performance em espanhol traz identidade, resistência e amor para o maior palco dos EUA
O show do intervalo do Super Bowl é um dos eventos culturais mais assistidos dos Estados Unidos, reunindo dezenas de milhões de pessoas em busca de um espetáculo que vai muito além do futebol americano. Em 2026, Bad Bunny, artista porto-riquenho, protagonizou uma apresentação carregada de simbolismos, quase toda em espanhol, que dialoga diretamente com a história, a identidade e as lutas do seu povo.
Raízes e memórias da terra
O show começou em um cenário que remetia aos campos de cana-de-açúcar, com artistas vestidos como jíbaros — os trabalhadores rurais tradicionais de Porto Rico — usando chapéus típicos chamados pavas. Essa ambientação não é apenas estética, mas evoca a memória da economia colonial da ilha, marcada pela exploração da cana sob o domínio espanhol e depois estadunidense. É uma lembrança das origens e das cicatrizes históricas que moldam a identidade porto-riquenha.
Ricky Martin e a advertência sobre o apagão cultural
Em um momento emocionante, Ricky Martin se juntou ao palco para cantar um trecho da música Lo Que Le Pasó a Hawái, de Bad Bunny. A canção usa o exemplo do Havaí para alertar sobre os perigos do turismo desenfreado e da gentrificação, que ameaçam expulsar comunidades e apagar tradições. A letra fala de um processo doloroso de perda: primeiro da natureza, depois dos bairros, das famílias e, por fim, da cultura.
“Quieren quitarme el río
Y también la playa.
Quieren el barrio mío
Y que abuelita se vaya.”
Essa mensagem ressoa profundamente para a comunidade LGBTQIA+ e todos que veem na cultura uma forma de resistência contra apagamentos sociais e políticos.
As torres elétricas e a luta contra a desigualdade
Outro símbolo forte foi a imagem dos jíbaros subindo postes de eletricidade que faíscavam, referência direta às frequentes quedas de energia em Porto Rico, especialmente após o furacão Maria. Essa fragilidade na infraestrutura é um retrato das desigualdades materiais e das dificuldades enfrentadas pela ilha, que ainda luta para se recuperar de crises humanitárias e econômicas.
Uma América plural e inclusiva
O encerramento do show trouxe Bad Bunny dizendo “God Bless America” seguido de uma chamada dos países das Américas do Sul, Central e Norte, incluindo o Caribe. Essa sequência desafiou a ideia comum nos EUA de que “América” se refere só aos Estados Unidos, celebrando a diversidade e pluralidade do continente como um todo — uma mensagem poderosa de união e pertencimento que ressoa para além das fronteiras.
Em meio a críticas e elogios, a apresentação de Bad Bunny no maior palco da cultura pop estadunidense reforçou a importância da visibilidade latina e a força do amor como resposta ao ódio. Para a comunidade LGBTQIA+, que também luta por reconhecimento e respeito, esses símbolos representam a potência de afirmar identidades complexas e multifacetadas em espaços de grande alcance.
O show não foi só um espetáculo, mas um manifesto cultural que nos lembra que a resistência passa pela celebração das nossas raízes, pela denúncia das injustiças e pelo convite à solidariedade continental. Em tempos de tantas divisões, ver um artista latino expressando essas narrativas no Super Bowl é um passo gigante para a representatividade e o empoderamento de todas as vozes marginalizadas.
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