Especialistas alertam que a proibição afeta o acesso a comunidades e apoio vital para adolescentes queer em regiões afastadas
O iminente banimento do uso das redes sociais para menores de 16 anos preocupa profundamente jovens LGBTQIA+ que vivem em regiões rurais e interiores do país. Para esses adolescentes, as plataformas digitais não são apenas entretenimento, mas sim um refúgio fundamental onde encontram acolhimento, apoio e uma rede de solidariedade que muitas vezes falta no convívio presencial.
Abbie Jane, de 16 anos, mora em Broken Hill, uma cidade distante mais de 500 km da capital mais próxima. Ela relembra a solidão e a exclusão que sentiu crescendo em um lugar onde a diversidade sexual e de gênero é pouco visibilizada. “Sentia que estava completamente sozinha, sem pessoas parecidas comigo e muito isolada do resto do mundo”.
Na escola, Abbie enfrentava bullying homofóbico constante, que afetava gravemente sua saúde mental. Foi na internet que ela encontrou sua válvula de escape, criando o projeto Rainbow Shoelace, que distribui miçangas coloridas como símbolo de orgulho LGBTQIA+. “Minha salvação foi o ambiente online, onde finalmente pude me sentir orgulhosa de quem sou”.
O impacto do banimento nas conexões vitais
A partir de 10 de dezembro, a legislação deve impedir o acesso de menores de 16 anos a redes sociais como Facebook, Instagram, TikTok, Snapchat e YouTube. Organizações como a SA Rainbow Advocacy Alliance e a ONG Minus18 alertam que esse bloqueio pode deixar muitos adolescentes queer ainda mais isolados, especialmente em áreas onde espaços físicos seguros para essa comunidade são escassos.
Kelsey Van der Woude, de 15 anos, do Riverland, na Austrália do Sul, destaca que as redes sociais foram essenciais para que pudesse compreender e expressar sua identidade como pessoa agênero e lésbica. “Sem esses espaços virtuais, LGBT+ ficarão cortados, sem referências e amizades que os ajudem a se sentir integrados”.
O desafio do apoio presencial
Para Ace Long, de 16 anos, que também se identifica como agênero e pansexual, grupos comunitários locais foram fundamentais para seu suporte offline. No entanto, a falta de investimento em espaços físicos de acolhimento para jovens LGBTQIA+ em regiões afastadas é uma preocupação constante.
“O banimento das redes sociais só terá efeito positivo se vier acompanhado de uma maior oferta de ambientes seguros para que esses jovens possam se encontrar e se apoiar”, afirma Varo Lee, CEO da SA Rainbow Advocacy Alliance.
Escolas e governo: o papel na inclusão
Os jovens entrevistados também apontam a necessidade urgente de escolas mais inclusivas e preparadas para combater o bullying e acolher a diversidade. Abbie relata que muitas das agressões que sofreu vieram de colegas na escola, e não de desconhecidos na internet.
Embora o governo tenha afirmado ter consultado grupos LGBTQIA+ e de saúde mental, ainda não detalhou como pretende garantir que o banimento não agrave o isolamento desses adolescentes.
Para a comunidade queer do interior, as redes sociais são muito mais que diversão: são a linha tênue entre o abandono e a esperança de pertencimento. E, enquanto as políticas públicas não acompanham essas necessidades, o futuro desses jovens pode ficar ainda mais solitário.