Cantor turco enfrenta processo por música que celebra amor entre homens em meio à repressão LGBTQIA+
Mabel Matiz, um dos nomes mais icônicos da música pop na Turquia, está no centro de uma batalha que vai muito além das notas e letras: sua arte tornou-se alvo de uma severa repressão. Em 2025, no que o governo turco declarou como o “Ano da Família”, o cantor enfrenta acusações criminais por sua música “Perperişan”, que celebra um amor entre homens, desafiando o conservadorismo crescente e o cerceamento dos direitos LGBTQIA+ no país.
Quando a música vira ato político
Lançada em setembro, “Perperişan” – que pode ser traduzida como “confuso e apaixonado” – é uma canção que remete à tradição musical erótica dos anos 1990 na Turquia, combinando elementos do pop com uma poesia carregada de metáforas sobre desejo e conexão entre pessoas do mesmo sexo. As letras, embora não explícitas, sugerem um romance entre dois homens, o que levou o Ministério da Família e Serviços Sociais do país a solicitar o bloqueio da faixa em plataformas digitais como Spotify e YouTube.
O argumento oficial é que a música poderia “prejudicar a instituição da família”, “afetar negativamente as crianças” e “desestabilizar a ordem pública”. No entanto, para a comunidade LGBTQIA+ e seus aliados, essa é mais uma tentativa de silenciar vozes que celebram a diversidade sexual e de gênero.
Repressão legal e cultural
Mabel Matiz foi formalmente acusado de “obscenidade” com base no artigo 226 do Código Penal turco, que criminaliza a publicação de material considerado ofensivo. O cantor, conhecido por seu ativismo em favor dos direitos LGBTQIA+, já havia enfrentado censura em 2022, quando um clipe seu foi proibido por sugerir relações homoeróticas.
Além da acusação, Matiz teve seu passaporte retido e foi proibido de viajar para o exterior, obrigando-o a cancelar shows internacionais, incluindo uma apresentação na Holanda. A situação expõe não só a perseguição pessoal ao artista, mas também o clima hostil que cresce contra a comunidade LGBTQIA+ em todo o país.
O contexto do “Ano da Família”
Em 2025, sob o governo do presidente Recep Tayyip Erdoğan, a Turquia declarou o período como o “Ano da Família”, promovendo discursos que associam as identidades LGBTQIA+ a ameaças à moral, aos valores tradicionais e à estrutura social. Erdoğan e seus apoiadores têm atacado o que chamam de “ideologias desviantes” e “neutralização de gênero”, reforçando políticas de censura e criminalização contra expressões que fogem do padrão heteronormativo.
Essa ofensiva inclui propostas legislativas que podem levar à prisão de pessoas LGBTQIA+ e de quem não seguir estereótipos rígidos de gênero, além de ações contra artistas e grupos que expressam sexualidade ou identidade diversa. O cerco cultural se reflete também na proibição de filmes, séries e músicas que retratam temas LGBTQIA+ ou cenas de sexo, ampliando o controle estatal sobre o que pode ser consumido pelo público.
Resistência artística e social
Diante desse cenário, Mabel Matiz se tornou símbolo de resistência. Em sua defesa pública, o cantor ressaltou que sua obra faz parte de uma longa tradição literária e artística e que uma canção não representa ameaça à ordem pública ou à saúde social. Sua luta é a luta de muitos artistas e ativistas turcos que, mesmo sob crescente repressão, continuam a afirmar suas identidades e a reivindicar espaços de liberdade e amor.
Além de Matiz, outras vozes como o grupo feminino Manifest enfrentam investigações e censura por expressar sexualidade e liberdade corporal, demonstrando que a repressão vai além da música solo e atinge diversos segmentos culturais.
Para o público LGBTQIA+, dentro e fora da Turquia, a história de Mabel Matiz é um chamado para a solidariedade e a defesa intransigente dos direitos humanos e da liberdade artística. É também um lembrete do poder da arte como espaço de expressão, transformação e resistência contra o autoritarismo e a intolerância.