Postagens tiraram imagens de contexto e ligaram prisões à cúpula do Judiciário salvadorenho. Entenda por que isso é falso.
A expressão corte suprema entrou em alta no Brasil nesta quinta-feira (21) depois que um vídeo viralizou nas redes com a alegação de que ex-juízes da Suprema Corte de El Salvador teriam sido presos. Mas a checagem publicada pelo Aos Fatos mostra que a informação é falsa e que as imagens, na verdade, são de maio de 2024.
O registro mostra funcionários da cooperativa salvadorenha Cosavi detidos em um caso de fraude e lavagem de dinheiro, sem relação com magistrados do país. Ainda assim, o conteúdo enganoso ganhou grande alcance: segundo o Aos Fatos, as postagens somavam ao menos 5,5 milhões de visualizações no X, 103 mil no TikTok e centenas de interações no Instagram até 21 de maio.
Por que a expressão corte suprema ficou em alta?
O interesse explodiu porque o vídeo circulou com uma narrativa política forte, sugerindo que o presidente Nayib Bukele teria mandado prender antigos integrantes do Judiciário de El Salvador por corrupção. Esse tipo de postagem costuma mobilizar muito engajamento no Brasil, especialmente em debates sobre punição a autoridades, STF e disputas entre Executivo e Judiciário.
Segundo a apuração do Aos Fatos, a gravação usada nos posts foi publicada originalmente em 10 de maio de 2024 e exibe pessoas presas no âmbito do caso Cosavi, uma cooperativa de poupança investigada por desvio de US$ 35 milhões. A apresentação dos detidos foi divulgada por perfis da imprensa local, como o Noticiero El Salvador, e se referia a suspeitos de fraude e lavagem de dinheiro.
Ou seja: o vídeo existe, as prisões também, mas não têm qualquer ligação com ex-membros da Suprema Corte salvadorenha. É um caso clássico de conteúdo real usado fora de contexto para sustentar uma narrativa política falsa.
O que aconteceu com o Judiciário de El Salvador?
A confusão não surgiu do nada. Em 2021, membros da câmara constitucional do Supremo Tribunal de Justiça de El Salvador, órgão com funções semelhantes às do STF brasileiro, foram destituídos pelo Congresso do país, que era controlado por aliados de Bukele. Na mesma ocasião, o procurador-geral também foi removido.
De acordo com reportagens citadas na checagem, a medida ocorreu após decisões do Judiciário contrárias a ações adotadas pelo governo durante a pandemia de Covid-19. Meses depois, em setembro de 2021, Bukele também determinou a aposentadoria compulsória de 690 juízes e dezenas de promotores após mudanças na Lei da Carreira Judicial.
Esse contexto ajuda a explicar por que a mentira parece plausível para muita gente: houve, de fato, um choque entre governo e Judiciário em El Salvador. Mas, conforme a checagem, nenhum dos magistrados destituídos foi preso.
Como a desinformação se espalhou tão rápido?
Posts com imagens de pessoas uniformizadas e enfileiradas costumam gerar impacto imediato. Quando esse apelo visual vem acompanhado de frases sobre corrupção, punição e “limpeza” institucional, a circulação tende a crescer ainda mais. No caso de El Salvador, a figura de Bukele já desperta reações intensas no Brasil, tanto de admiração quanto de crítica, o que amplia o alcance de conteúdos enganosos.
Também pesa o fato de que decisões de cortes supremas e tribunais constitucionais costumam ser tema sensível para a democracia e para os direitos civis. Para a comunidade LGBTQ+, isso importa de maneira muito concreta: em vários países, inclusive no Brasil, cortes superiores têm papel decisivo na garantia de direitos, no combate à discriminação e na proteção de minorias quando maiorias políticas tentam restringi-las.
Por isso, desinformação sobre prisões de juízes, supostas “faxinas” no Judiciário ou punições exemplares precisa ser vista com cuidado. Narrativas desse tipo podem normalizar ataques à independência judicial e enfraquecer a confiança pública em instituições que, muitas vezes, são justamente as que asseguram direitos fundamentais.
Na avaliação da redação do A Capa, o caso mostra como a desinformação política se aproveita de imagens fortes para vender soluções autoritárias como se fossem justiça. Em democracias frágeis ou tensionadas, desacreditar tribunais e celebrar intervenções contra juízes pode ter efeitos profundos sobre direitos humanos — inclusive os da população LGBTQ+. Separar fato de propaganda, nesse cenário, não é detalhe: é uma forma de defesa democrática.
Perguntas Frequentes
O vídeo mostra mesmo ex-juízes da Suprema Corte de El Salvador?
Não. Segundo a checagem do Aos Fatos, as imagens mostram funcionários da cooperativa Cosavi presos em 2024 por suspeita de fraude e lavagem de dinheiro.
Juízes da corte máxima de El Salvador chegaram a ser presos?
Não há registro disso no caso citado. Magistrados da câmara constitucional foram destituídos em 2021, mas não presos.
Por que esse assunto repercutiu no Brasil?
Porque o vídeo foi compartilhado com forte carga política e acabou entrando no debate brasileiro sobre Judiciário, punição a autoridades e desinformação nas redes.
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