Partido Chega usou cravos verdes, ícone gay do século XIX popularizado por Oscar Wilde
Na sessão solene do 25 de Abril em Portugal, o partido Chega surpreendeu ao levar para o Parlamento cravos verdes feitos em crochê. André Ventura, líder do partido, apresentou o cravo verde como um símbolo da comunidade emigrante portuguesa espalhada pelo mundo, carregando a flor no bolso do casaco. Contudo, nas redes sociais, a interpretação desse gesto foi rapidamente corrigida: o cravo verde é, na verdade, um símbolo histórico da comunidade LGBTQIA+, especialmente da comunidade gay, com raízes que remontam ao século XIX.
O significado histórico do cravo verde na cultura LGBTQIA+
O cravo verde ganhou destaque quando o escritor irlandês Oscar Wilde, uma das figuras mais icônicas da história gay, pediu aos amigos que usassem essa flor na lapela durante a estreia da peça “Lady Windermere’s Fan” em 1892. Segundo o museu escocês V&A Dundee, o cravo tornou-se um emblema de Wilde e, por extensão, da comunidade gay da época.
O historiador de gênero Andrew Lear explica que Wilde era evasivo sobre o significado do cravo, sugerindo que não tinha um sentido explícito, mas que justamente essa ambiguidade funcionava como um código secreto. Para a comunidade decadentista, o cravo verde representava a ideia de que a natureza deveria imitar a arte, sendo uma flor de cor artificial que simbolizava o gosto pelo artificial e pelo “antinatural” — um termo usado para descrever relações entre pessoas do mesmo sexo naquele período.
Um código secreto da comunidade gay do século XIX
O uso do cravo verde já estava em voga entre a comunidade gay de Paris antes mesmo de Wilde popularizá-lo. A flor servia como um sinal discreto entre homens que se sentiam atraídos por outros homens, funcionando como uma espécie de código para reconhecer-se em um tempo em que a homossexualidade era ilegal e perigosa.
Esse simbolismo foi reforçado pelo romance The Green Carnation (O Cravo Verde), publicado anonimamente em 1894 e atribuído posteriormente ao jornalista Robert Hichens, próximo de Wilde. A obra é vista como uma alegoria da relação entre Wilde e Alfred “Bosie” Douglas, cuja exposição levou Wilde à acusação por “indecência” e à prisão por dois anos.
Andrew Lear ressalta que, assim como muitos símbolos LGBTQIA+ de épocas passadas, o cravo verde funcionava mais como uma sugestão ou pista do que como um símbolo explícito, preservando a discrição necessária para a sobrevivência da comunidade.
Cravo verde e o debate contemporâneo
O uso do cravo verde pelo Chega gerou debate não só pela apropriação do símbolo, mas também pela tentativa de reinterpretar seu significado original. A comunidade LGBTQIA+ reconhece no cravo verde um emblema de resistência e identidade em tempos de repressão, tornando sua utilização fora desse contexto uma questão sensível.
O episódio relembra a importância de reconhecer e respeitar os símbolos históricos da luta LGBTQIA+, que carregam histórias de coragem, amor e resistência contra a opressão.
O cravo verde é mais do que uma flor; é um elo entre gerações que enfrentaram o silêncio e o preconceito. Sua história nos convida a refletir sobre as formas sutis de resistência e a importância de preservar a memória queer para que símbolos de identidade não sejam apagados ou deturpados. Em tempos atuais, reconhecer esses signos é também um ato de celebração e afirmação da diversidade que fortalece a comunidade LGBTQIA+.
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