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Cuidado ético e saúde trans: desafios e avanços no SUS em São Paulo

Cuidado ético e saúde trans: desafios e avanços no SUS em São Paulo

Evento no Emílio Ribas destaca a importância do acolhimento e enfrentamento à transfobia na saúde pública

Em meio ao Mês da Visibilidade Trans, o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, sediou um encontro que trouxe à tona os desafios e avanços do cuidado ético para pessoas trans no Sistema Único de Saúde (SUS). O evento Tributo ao Cuidado Ético e às Existências Trans reuniu profissionais, pesquisadoras, gestores públicos e pessoas trans para discutir como transformar protocolos técnicos em práticas de acolhimento que dialoguem com as vidas reais dessas populações.

Entre normas, burocracias e vidas reais

O cuidado em saúde, tradicionalmente pautado por normas técnicas e protocolos, muitas vezes não reflete a complexidade da experiência trans. Paola Souza, psicóloga e pesquisadora, destacou que o excesso de foco em dados biomédicos desumaniza o atendimento, deixando de lado elementos fundamentais como sonhos, paixões e histórias pessoais. Para ela, a vivência trans é um saber único, impossível de ser plenamente apreendido sem que profissionais da saúde tenham contato direto e empático com essa realidade.

Luiz Carlos Pereira Júnior, do Instituto Emílio Ribas, reforçou o compromisso institucional em combater a transfobia e promover um ambiente seguro. Ele ressaltou que o cuidado ético não se limita a ações clínicas, mas envolve também a formação das equipes e a responsabilização diante de qualquer denúncia de discriminação.

Retrocessos e resistências na gestão pública

Tânia Corrêa, da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, falou sobre o impacto da recente resolução do Conselho Federal de Medicina que restringiu o atendimento a pessoas trans, especialmente crianças e adolescentes. A surpresa e o temor tomaram conta das equipes, mas a gestão buscou alternativas para manter o cuidado, mesmo diante de um cenário marcado pela insegurança e pelo medo de represálias.

Para Saulo Vito, psiquiatra do Núcleo Trans da Unifesp, a interrupção abrupta de tratamentos provocou aumento da auto-hormonização e agravamento do sofrimento psíquico. Ele também criticou o papel tardio da psiquiatria, que costuma intervir apenas quando outros espaços, como escolas e famílias, falham em acolher.

Saúde mental e pertencimento

Pesquisas apresentadas por José Luís Gomes Nunes, do Núcleo de Direitos Humanos e Saúde da População LGBT (NUDHES), revelaram índices alarmantes de sofrimento psíquico, ideação e tentativas de suicídio entre mulheres trans e travestis. O projeto Aurora Trans, focado em navegação de pares para saúde mental, demonstrou que fortalecer redes de apoio e criar espaços de escuta são estratégias eficazes para a promoção do bem-estar emocional.

Despatologização e inclusão no SUS

Ricardo Barbosa, diretor do Ambulatório Trans do CRT DST/Aids-SP, lembrou que o serviço foi pioneiro ao abandonar o diagnóstico de gênero como requisito para o atendimento, priorizando a escuta e o acesso digno. Essa mudança paradigmática provocou desconfortos, mas abriu caminho para práticas mais inclusivas e éticas.

Naila Janilde, médica do CRT, ressaltou que a demanda superou todas as expectativas, impulsionando a descentralização do atendimento e a formação de profissionais capacitados em diversas regiões. A adaptação às necessidades das pessoas não binárias também foi um aprendizado construído na prática.

Dados para transformar políticas

Bárbara Barroso, coordenadora do Mapeamento da População Trans, destacou que a produção de dados não serve apenas para estatísticas, mas para fortalecer a pressão política por direitos e políticas públicas amplas, que vão além da saúde e envolvem trabalho, renda e dignidade. Ela defende que esse conhecimento seja usado como ferramenta de empoderamento da comunidade trans.

O evento evidenciou que o cuidado ético em saúde para pessoas trans é uma construção coletiva que ultrapassa normas técnicas, envolvendo escuta, acolhimento e compromisso político. Tornar as vidas trans visíveis é garantir que elas sejam cuidadas com humanidade e respeito, dentro e fora das instituições.

Essa reflexão sobre o cuidado trans no SUS não é apenas um debate técnico, mas um chamado à transformação cultural e social. Para a comunidade LGBTQIA+, especialmente pessoas trans, significa resgatar a confiança em um sistema que historicamente falhou, mas que pode se reinventar com empatia e justiça.

Em tempos de avanços e retrocessos, reconhecer o valor da experiência trans no cuidado em saúde é um passo fundamental para a construção de uma sociedade mais inclusiva e afetiva. A luta por direitos e pela dignidade nos serviços públicos é também uma luta por reconhecimento e pertencimento, que fortalece toda a comunidade LGBTQIA+.

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