De insulto a símbolo de poder, a palavra ‘cunt’ se tornou afirmação queer e marca até novela das 9
O termo cunt, originalmente um xingamento misógino e sinônimo vulgar para vulva na língua inglesa, atravessou um processo profundo de ressignificação dentro da cultura LGBTQIA+. O que já foi considerado uma das palavras mais ofensivas do inglês ganhou nova vida, tornando-se um símbolo ousado de afirmação, força e subversão, especialmente na cena queer e na cultura ballroom.
Da ofensa à celebração coletiva
Na novela Três Graças, o personagem Bagdá, interpretado por Xamã, exemplifica essa transformação. Seu figurino maximalista, com estampas de animais, joias chamativas e um estilo que foge do realismo típico de traficantes, reflete a ideia de “servir cunt” — uma expressão que, nesse contexto, significa vestir-se de forma poderosa e desafiadora, rompendo padrões convencionais de beleza e comportamento.
Enquanto traficantes da vida real não vestem roupas tão extravagantes, a figurinista Paula Carneiro explica que o visual de Bagdá e seu bando foi pensado para expressar vaidade e soberania, com elementos que remetem a felinos, simbolizando o domínio na selva urbana. Essa escolha estética conecta diretamente com o uso queer da palavra cunt como um código de empoderamento.
Influência da cultura ballroom e da internet
O termo ganhou força inicialmente na cultura ballroom, ambiente de performance e reinvenção da identidade, onde a palavra passou a ser performada com humor, ironia e criatividade. RuPaul, ícone drag queen americano, chegou a atribuir um significado positivo para cada letra da palavra: Carisma, Unicidade, Coragem e Talento, reforçando sua potência simbólica.
Nas redes sociais, essa ressignificação se espalhou rapidamente. Influencers como Sarah Scar, que se identifica como bigênero, usam o termo para celebrar looks que a fazem sentir-se sexy e confortável, mesmo em peças agênero ou com referências religiosas. Para ela, resgatar palavras que foram usadas para oprimir e transformá-las em símbolos de força é um ato de resistência e orgulho.
Desafios e impactos sociais
Pesquisadores como Ferdinando Martins, da USP, e Natália Ayrosa, da Universidade Federal Fluminense, destacam que a popularização do termo pela internet dilui o contexto histórico da palavra, suavizando sua carga ofensiva para muitos, mas sem apagar a dor para aqueles que foram diretamente afetados pelo seu uso pejorativo. Ainda assim, essa transformação linguística representa um movimento importante de reinvenção identitária e coletiva.
Essa apropriação do cunt também reflete a dinâmica da linguagem queer, que frequentemente subverte insultos para fortalecer laços comunitários e criar novas formas de expressão cultural. A popularização do termo em contextos como músicas de Beyoncé e nas redes sociais mostra como essa reapropriação ultrapassa nichos, alcançando públicos mais amplos e contribuindo para uma visibilidade maior da diversidade e da resistência LGBTQIA+.
Reflexões finais
A transformação do cunt de um termo ofensivo para um símbolo de poder na cultura queer evidencia a força da comunidade LGBTQIA+ em ressignificar narrativas e construir identidades plurais. Essa apropriação linguística não apenas desafia o preconceito, mas também celebra a liberdade de expressão e a ousadia de ser quem se é, em toda sua autenticidade e diversidade.
Em um mundo onde palavras carregam história e emoção, essa reinvenção é um lembrete de que a linguagem pode ser uma arma de empoderamento e um espaço de acolhimento. Para a comunidade LGBTQIA+, cunt é mais do que um termo: é um manifesto de resistência, estilo e afirmação coletiva.
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