Movimentos conservadores dos EUA sustentam grupos antiaborto na Europa, ameaçando direitos reprodutivos
Nos últimos anos, a luta pelo direito ao aborto tem sido intensamente atacada globalmente por uma rede conservadora que atravessa fronteiras e oceanos. Um exemplo claro dessa articulação é a cooperação entre grupos antiaborto dos Estados Unidos e organizações similares na Alemanha, que vêm se fortalecendo tanto estrategicamente quanto financeiramente.
Essa aliança internacional ficou evidente em fevereiro, quando dezenas de grupos pró-vida americanos enviaram uma carta de apoio às medidas da administração Trump para restringir abortos, incluindo a organização alemã “Aktion Lebensrecht für Alle”, que se autodenomina a maior entidade pró-vida do país. Essa assinatura simboliza a interdependência dessas organizações na difusão de táticas e discursos conservadores.
Importação de estratégias e dinheiro
Segundo ativistas como Elodie Fischer, do coletivo feminista berlinense Frauenkollektiv, os movimentos antiaborto na Alemanha acompanham atentamente as estratégias que fazem sucesso nos EUA e buscam imitá-las. Entre essas táticas está a mobilização em torno de petições e campanhas coordenadas por organizações multinacionais, como a CitizenGO, que participou da campanha para barrar a nomeação da juíza Frauke Brosius-Gersdorf para o Tribunal Constitucional alemão, acusando-a de ser uma “ativista radical anti-vida”.
Além do intercâmbio estratégico, há uma transferência significativa de recursos financeiros. Um relatório do Parlamento Europeu destaca que, desde 2019, grupos conservadores dos EUA gastaram cerca de 22 milhões de dólares anualmente para fortalecer movimentos antiigualdade de gênero e antiaborto na Europa. Na Alemanha, uma figura central dessa rede é a princesa Gloria von Thurn und Taxis, que mantém conexões com atores de extrema direita americanos, incluindo figuras associadas ao Supremo Tribunal dos EUA e à Alliance Defending Freedom (ADF), organização que financia processos judiciais contra o direito ao aborto.
Impactos para o acesso ao aborto na Alemanha
Embora o movimento antiaborto alemão tenha raízes próprias, a influência e o financiamento dos EUA têm potencializado a visibilidade e agressividade dessas ações no país. Médica ginecologista Annika Kreitlow relata que o acesso a medicamentos abortivos já é complicado, com demora na obtenção e restrições legais que dificultam sua prescrição. Além disso, medidas locais, como o veto à telemedicina para aborto em alguns estados, refletem estratégias similares às aplicadas nos EUA.
Enquanto isso, pesquisas indicam que mais de 80% da população alemã apoia a descriminalização do aborto, mas o governo permanece inerte diante das crescentes pressões conservadoras. A falta de apoio governamental e a aposentadoria dos médicos que realizam abortos podem agravar ainda mais o acesso, tornando-o cada vez mais restrito.
Resistência e mobilização
Ativistas feministas e grupos progressistas estão se organizando para enfrentar essa onda conservadora, promovendo protestos contra eventos como o “Marsch für das Leben” (Marcha pela Vida) em diversas cidades. Para eles, a batalha atual é crucial para manter os direitos conquistados e impedir retrocessos que possam espelhar o cenário norte-americano, onde o direito ao aborto foi severamente restringido após a revogação do julgamento Roe v. Wade.
A conjuntura exige mobilização constante e pressão social para garantir que o direito ao aborto continue sendo um direito respeitado e acessível na Alemanha. A luta das comunidades LGBTQIA+ e dos movimentos feministas está mais do que nunca interligada à defesa desses direitos fundamentais.