A presença pioneira do drag na América do século XIX ganha destaque no universo LGBTQIA+ e na cultura pop atual
O universo do drag está entrelaçado à história dos Estados Unidos muito antes de se tornar um fenômeno da cultura pop contemporânea. A série The Gilded Age, ambientada na década de 1880, trouxe um raro e precioso vislumbre dessa presença queer na alta sociedade da época — mas para muitos, esse momento foi quase invisível.
O que você perdeu em The Gilded Age?
No episódio cinco da série, os personagens Larry Russell e Jack Trotter visitam o Haymarket, um clube real de Nova York do final do século XIX, conhecido como a versão americana do Moulin Rouge parisiense. Lá, em meio a apresentações como boxe feminino, um homem aparece vestido com um elegante vestido de noite feminino, representando a cultura dos female impersonators (impostores femininos) que florescia no período.
O coordenador de figurinos da série, Matthew Carlsen, que também é um renomado drag performer, explicou a importância de trazer essa representatividade para a tela. Ele destacou que a inclusão de personagens draggers daquele tempo geralmente é feita de forma cômica, mas em The Gilded Age, houve uma tentativa de retratar essas figuras com seriedade e respeito — embora a maior parte da cena tenha sido cortada na edição final.
Drag na Era Dourada: mais do que entretenimento, uma afirmação política
O drag naquela época não era apenas um show; era uma forma de resistência e afirmação identitária. De personagens como Brigham Morris Young, que se apresentava como Madam Pattirini em Utah, a William Dorsey Swann, nascido escravo e considerado a primeira pessoa a se autointitular “Rainha do Drag” nos Estados Unidos, essa cultura já pulsava forte no século XIX.
Swann organizava eventos secretos de drag em Washington, D.C., que mais tarde sofreram repressão policial, mas que fortaleceram a comunidade queer negra e trans da época. Em Nova York, os lendários Hamilton Lodge Balls, realizados no Harlem, eram eventos grandiosos onde pessoas de todas as cores e classes sociais celebravam o drag e a expressão de gênero livremente, definindo as bases do que hoje conhecemos como cultura ballroom.
Visibilidade LGBTQIA+ em narrativas históricas
Matthew Carlsen reforça a importância de representar histórias queer com complexidade em produções históricas. Muitas vezes, personagens LGBTQIA+ são retratados de maneira sanitizada e simplificada, tentando agradar ao público majoritário heteronormativo. A presença do drag na série e a valorização de figuras históricas como Julian Eltinge, um famoso artista do início do século XX que desafiava as barreiras de gênero, são passos importantes para mudar essa narrativa.
O drag, além da performance e da moda, é um ato de liberdade. Ele permite que pessoas marginalizadas se tornem reis e rainhas por uma noite, celebrando sua identidade e encontrando comunidade. A história do drag na Era Dourada nos lembra que essa expressão de gênero e arte é uma tradição profunda e vital para a cultura LGBTQIA+.
Por que celebrar o passado importa para o presente
Ao resgatar essas histórias e aproximá-las do público atual, séries como The Gilded Age abrem espaço para diálogos sobre diversidade, resistência e orgulho. Reconhecer que o drag tem raízes históricas em eventos como os Hamilton Lodge Balls e nas vidas de pioneiros como William Dorsey Swann é celebrar a ancestralidade e a luta da nossa comunidade.
Em tempos em que a representatividade LGBTQIA+ ainda é uma conquista em construção, olhar para o passado nos inspira a continuar reivindicando espaço e visibilidade, seja na tela, nos palcos ou na vida cotidiana.
O drag na Era Dourada não é apenas uma curiosidade histórica — é um legado vivo que reverbera no orgulho e na força da comunidade LGBTQIA+ até hoje.
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