Conflito em escola de Mbarara destaca tensão e repressão contra LGBTQIA+ em ambiente escolar
Em um episódio alarmante de intolerância e violência, quatro estudantes da renomada Ntare School, em Mbarara, Uganda, foram alvos de uma tentativa de linchamento por colegas que os acusavam de praticar e promover a homossexualidade. O incidente aconteceu no domingo à noite, dentro do campus, e revela a dura realidade enfrentada por jovens LGBTQIA+ em ambientes escolares de países onde a diversidade ainda é criminalizada e estigmatizada.
Dois dos estudantes acusados foram protegidos por professores, enquanto outros dois conseguiram fugir em meio ao tumulto que tomou conta da escola. A situação só foi controlada após a intervenção da polícia, chamada pela administração para restaurar a ordem, já que alguns alunos revoltados chegaram a vandalizar prédios e quebrar vidraças.
Clima de medo e repressão entre estudantes
O clima de insegurança para estudantes LGBTQIA+ na Ntare School é palpável. Um aluno, que preferiu manter o anonimato por medo de represálias, declarou que a prática da homossexualidade estaria acontecendo abertamente, mas que a diretoria não tomava nenhuma providência. “Nossos prefeitos, que têm contato direto com a administração, dizem não saber de nada”, afirmou, criticando a aparente omissão das lideranças escolares.
Outro estudante ressaltou a frustração coletiva diante da ausência de medidas: “Se nós sabemos, os líderes também devem saber. É um alerta. Se não for resolvido, nós mesmos vamos agir para impedir essa prática. O presidente Museveni, ex-aluno da escola, apoia o projeto de lei anti-homossexualidade. Seria lamentável que isso aconteça aqui”.
Repressão institucional e contexto legal hostil
O diretor Saul Rwampororo confirmou que a confusão foi motivada por suspeitas de homossexualidade entre os estudantes. Ele explicou que a situação se agravou quando alguns alunos tentaram atacar quatro colegas acusados, levando a violência e destruição de propriedade escolar, inclusive na sala do chefe de turma, que foi acusado de conivência. A escola já havia aplicado suspensões em casos anteriores relacionados a comportamentos semelhantes.
O policial Samson Kasasira, porta-voz da região de Rwizi, confirmou a chegada da polícia para conter a situação, mas afirmou que as investigações ainda estão em andamento, sem prisões até o momento.
O episódio reforça o ambiente hostil que jovens LGBTQIA+ enfrentam em Uganda, especialmente após a aprovação da Lei Anti-Homossexualidade de 2023, que criminaliza relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo e a promoção dessas relações, com penas de prisão perpétua.
Histórico de conflitos na Ntare School
Ntare School, uma instituição tradicional, tem um histórico marcado por greves e protestos relacionados a diversas questões internas. Em 2015, uma greve foi deflagrada após acusações similares de homossexualidade, que na época foram negadas pela administração, que alegou que os conflitos tinham outras motivações, como punições a furtos de uniformes.
Esses eventos evidenciam a necessidade urgente de reflexões sobre inclusão, direitos humanos e proteção à diversidade em ambientes educacionais, num país onde o medo e a repressão ainda cercam as identidades LGBTQIA+.
Para a comunidade LGBTQIA+ que acompanha essa realidade, a situação na Ntare School é um alerta sobre como o preconceito institucionalizado pode levar à violência e isolamento de jovens que apenas buscam viver sua verdade em espaços que deveriam ser seguros.