Mostra revela espaços e memórias LGBTQIA+ em Chicago, fortalecendo a luta e a arte queer
No coração pulsante de Chicago, EUA, uma nova exposição no Museu de Arte Contemporânea (MCA Chicago) revela a rica e muitas vezes invisibilizada história do ativismo queer local. Intitulada “City in a Garden: Queer Art and Activism in Chicago”, a mostra traz à tona a força, a resistência e a criatividade das comunidades LGBTQIA+ que encontraram e criaram espaços de pertencimento e luta na cidade.
Revelando histórias escondidas e territórios compartilhados
Um dos destaques da exposição são os alimentadores de pássaros cerâmicos criados por Faysal Altunbozar, em 2020, que homenageiam o Monroe Park Bird Sanctuary. Esse local, conhecido pela observação de aves, foi também um ponto de encontro secreto para a comunidade gay, onde o cuidado para ser visto ou não era parte da vivência cotidiana. A obra de Altunbozar simboliza poeticamente esses encontros, mostrando como a história queer está entrelaçada com o espaço urbano, muitas vezes oculta e esperando para ser descoberta.
O curador Jack Schneider destaca que essa exposição preenche uma lacuna na pesquisa sobre arte queer, que normalmente foca em cidades como Nova York e Los Angeles. Em Chicago, muitas dessas memórias ficaram fora dos registros oficiais, tornando a mostra um ato de resgate e afirmação histórica.
Memórias visuais que contam histórias de resistência
Além das obras de Altunbozar, a exposição apresenta fotografias de Doug Ischar que capturam homens gays à beira do lago Belmont nos anos 1980, um refúgio marcado pela beleza e pela tragédia da crise da AIDS. As imagens são um testemunho da vida queer em um momento de luta e perda.
Patric McCoy traz à tona o Rialto Tap, um bar no South Loop frequentado por homens negros que buscavam conexão, mesmo que nem todos se identificassem como gays. Essas narrativas visuais mostram a diversidade e complexidade das experiências LGBTQIA+ em Chicago.
Artista Edie Fake oferece uma perspectiva diferente com sua série “Memory Palaces” (2012), que transforma marcos queer em desenhos vibrantes e imaginativos, misturando arquitetura típica da cidade com símbolos de resistência, como o edifício “Killer Dyke”, nomeado em homenagem a um jornal feminista lésbico dos anos 1970.
Ativismo que pulsa no presente e no passado
“City in a Garden” também exibe materiais de grupos ativistas como ACT UP, que lutaram incansavelmente contra o descaso do governo durante a epidemia de AIDS. Um exemplo marcante é uma camiseta de 1990 com a frase “Power Breakfast”, que ironizava encontros formais entre autoridades e membros da comunidade LGBTQIA+, celebrando a irreverência e o poder da resistência feminina e queer.
Embora os direitos LGBTQIA+ tenham avançado, a exposição lembra que o preconceito e os ataques ainda ameaçam essas conquistas. Schneider ressalta que, desde o início do projeto em 2022, o cenário de direitos queer tem se tornado cada vez mais hostil, o que torna a mostra ainda mais necessária e urgente.
Chicago é descrita como uma “bolha azul” onde iniciativas como essa conseguem prosperar, mas Schneider reforça a importância de tornar essa história acessível para além da cidade, especialmente em locais onde o ativismo enfrenta barreiras maiores.
Arte, memória e luta em um só espaço
O colecionador Daniel S. Berger, médico e pesquisador fundamental para o desenvolvimento do tratamento da AIDS, contribuiu com peças essenciais para a exposição, unindo arte e ciência na preservação da memória queer. Sua coleção enfatiza artistas queer e negros, refletindo a demografia mais impactada pela epidemia.
“City in a Garden” é mais do que uma mostra de arte: é um documento vivo da história queer em Chicago, um chamado para reconhecermos que a cidade, seus edifícios, parques e até seus alimentadores de pássaros sempre foram territórios de existência LGBTQIA+. Em tempos de retrocessos políticos, essa exposição é um ato político e poético, reafirmando que a luta e a presença queer são parte indissociável da cidade.
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