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Grande ABC registra 49 denúncias de violência contra pessoas trans em 3 anos

Levantamento revela subnotificação e silenciamento das vítimas na região do Grande ABC paulista
Grande ABC registra 49 denúncias de violência contra pessoas trans em 3 anos

Levantamento revela subnotificação e silenciamento das vítimas na região do Grande ABC paulista

Entre 2023 e 2025, o Grande ABC paulista contabilizou 49 denúncias de violência direcionada a pessoas trans, segundo dados do Disque 100, canal oficial do governo federal para registro de violações de direitos humanos. Essas denúncias envolvem agressões físicas, verbais e psicológicas, além de outras formas de opressão e restrição de direitos. Ainda assim, especialistas alertam que esses números representam apenas uma fração da realidade, já que a subnotificação é grande devido ao medo, ao preconceito e à falta de acolhimento.

São Bernardo lidera denúncias, seguido por Santo André e Mauá

De acordo com os registros, São Bernardo do Campo concentra o maior número de denúncias, somando 14 casos. Santo André aparece em seguida, com 12, e Mauá com 11. Diadema registrou oito queixas, Rio Grande da Serra três e São Caetano apenas uma. Ribeirão Pires não apresentou denúncias nesse período. Esses dados, porém, não refletem a totalidade da violência enfrentada pela população trans na região.

Casos recentes evidenciam a gravidade da violência

O tema voltou a ganhar destaque após a brutal agressão sofrida por Robertha Suzana de Oliveira Félix, uma mulher trans de 23 anos, baleada na cabeça na madrugada de 24 de abril no bairro Campestre, em Santo André. O agressor, preso em flagrante, alegou que a vítima teria furtado seu celular. Esse episódio ilustra o perigo constante e a vulnerabilidade da população trans, que muitas vezes sofre violência letal motivada por preconceito e discriminação.

Subnotificação e silenciamento: barreiras para a justiça e o acolhimento

Segundo Maycon Legri, advogado e presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB de Santo André, o número oficial de denúncias não traduz a realidade vivida pelas pessoas trans. “Há medo de retaliação, desconfiança nas instituições e falta de acolhimento adequado. Muitas vítimas normalizam a violência e não registram os casos”, explica. Ele destaca que os 49 casos devem ser vistos como um indicador mínimo, pois grande parte das agressões permanece invisível.

A invisibilidade e o silenciamento social das pessoas trans são desafios estruturais. “O silenciamento social inviabiliza as vivências trans e impede o debate público, resultando no desaparecimento dos casos. Essa população enfrenta exclusão do mercado de trabalho, da educação e de direitos básicos”, completa o advogado.

Experiências de transfobia no mercado de trabalho

Wandy Pinheiro, estagiária e estudante de direito de 27 anos, compartilhou sua experiência de transfobia enquanto trabalhava em uma empresa de telemarketing em São Bernardo. Ela relata ter sido chamada pelo nome morto e pronomes errados durante o treinamento e ter enfrentado resistência para ter seu nome social reconhecido em benefícios, apesar da legislação que garante esse direito. Mesmo se dedicando, foi demitida e sentiu que seu valor não foi reconhecido.

Silenciamento institucional e social reforçam a violência

A socióloga Daniele Kowalewski, professora da FMU, observa que o silenciamento ocorre quando a violência contra pessoas trans é tratada como caso isolado. “Esse silêncio integra a própria violência, afastando pessoas trans da cidadania plena. Ele se manifesta quando escolas deixam de promover debates, delegacias não qualificam os casos adequadamente e a sociedade só enxerga essas pessoas após sua morte”, analisa.

Casa Neon: um refúgio com poucos recursos

A Casa Neon, localizada em São Bernardo, é um importante espaço de acolhimento para pessoas LGBT+ em situação de vulnerabilidade e vítimas de violência. Seu presidente, Paulo Araújo, destaca que cerca de 70% dos atendimentos são para pessoas transfemininas, totalizando entre 200 e 250 atendimentos mensais. Apesar da relevância, a instituição enfrenta dificuldades financeiras, contando majoritariamente com emendas parlamentares, sem apoio efetivo das prefeituras da região.

As prefeituras consultadas apresentaram respostas variadas: São Bernardo mantém diálogo e orientações com a Casa Neon; Santo André destaca o Centro de Referência de Proteção à Mulher como equipamento para atendimento; Diadema não possui fluxo institucional formal; enquanto as demais cidades não se manifestaram sobre o tema.

A violência contra pessoas trans no Grande ABC é uma realidade urgente que precisa ser enfrentada com políticas públicas eficazes, acolhimento real e combate ao preconceito estrutural. A subnotificação e o silenciamento social perpetuam o ciclo de violência, dificultando a visibilidade e o acesso a direitos básicos.

É fundamental que a comunidade, instituições e poder público unam esforços para garantir segurança, dignidade e respeito à população trans, reconhecendo suas demandas e fortalecendo espaços de apoio como a Casa Neon. O combate à transfobia deve ser prioridade para construir uma sociedade mais justa e inclusiva.

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