Incidente em Honolulu Pride revela desafios da comunidade LGBTQIA+ na preservação cultural havaiana
Durante uma caminhada à beira-mar em Honolulu, no Havaí, um comentário homofóbico inesperado interrompeu a celebração e trouxe à tona questões profundas sobre o turismo e a identidade LGBTQIA+ no estado mais diverso dos Estados Unidos. “Oh, olá, viados”, disse sorridente uma mulher branca ao ver duas pessoas carregando bandeiras do arco-íris a caminho do Honolulu Pride.
Apesar do Havaí ser conhecido por sua diversidade étnica e cultural, com uma população majoritariamente de origem asiática, polinésia e havaiana, esse episódio evidenciou que o preconceito ainda pode se manifestar até mesmo em locais considerados mais progressistas e acolhedores. Para o ativista e jornalista Calum McSwiggan, que vem documentando as paradas do orgulho LGBTQIA+ pelo mundo, essa foi a primeira vez que sofreu discriminação direta durante suas viagens, um alerta sobre o clima crescente de hostilidade nos EUA.
Entre a tradição e o impacto do turismo
Historicamente, a cultura havaiana reconhecia e respeitava a diversidade de gênero e sexualidade. Os māhū, pessoas que incorporavam características masculinas e femininas, eram valorizados como curadores e guias espirituais, e as relações entre pessoas do mesmo sexo, conhecidas como aikāne, eram socialmente aceitas e livres de estigma.
No entanto, com a colonização e a crescente influência externa, essas identidades foram marginalizadas e a cultura original sofreu perdas significativas. Hoje, com menos de 20% da população de ascendência havaiana nativa, o desafio é preservar a terra, as tradições e a própria identidade, especialmente diante do turismo massivo que ameaça o modo de vida local.
O turismo, que representa até 25% da economia do estado, é uma faca de dois gumes. Por um lado, gera renda essencial; por outro, contribui para a degradação ambiental e cultural, como evidenciado pelos incêndios devastadores em Maui em 2023, que expuseram desigualdades e impactos negativos da ocupação desordenada.
Honolulu Pride: resistência e celebração cultural
Em meio a esse cenário, o Honolulu Pride se destaca por centrar a cultura havaiana em suas celebrações. Com o tema “Ho’oamau” – que significa preservar e persistir – o evento integra trajes tradicionais, danças hula, cânticos e a presença de líderes indígenas LGBTQIA+. A figura de Pele, deusa do fogo e vulcões, simboliza a resiliência e soberania do povo nativo e ganha vida nas performances do festival.
Além de promover a visibilidade queer, o evento apoia organizações locais que trabalham na preservação cultural e no suporte à juventude LGBTQIA+ nativa, reafirmando a importância da interseccionalidade entre identidade e ancestralidade.
Turismo responsável e conexão com a comunidade
Durante sua estadia, Calum se hospedou em um hotel administrado por um nativo queer havaiano, onde pôde vivenciar e apoiar iniciativas locais que valorizam a cultura e a economia da comunidade. Atividades como o pākākā nalu (surfe em canoa havaiana) são oferecidas para conectar turistas ao mar e aos saberes ancestrais, promovendo um turismo regenerativo e consciente.
Esse modelo de turismo, defendido por líderes locais, busca remediar os impactos passados, respeitar a terra e garantir que as futuras gerações possam continuar chamando o Havaí de lar.
O episódio homofóbico que Calum vivenciou reforça a urgência de repensarmos como nos relacionamos com os lugares que visitamos e com as comunidades que lá habitam. A preservação da cultura havaiana e o respeito às identidades LGBTQIA+ são desafios que se entrelaçam e demandam atenção, empatia e ação coletiva.
Em tempos em que a diversidade enfrenta ataques e a cultura nativa luta para sobreviver, reconhecer essas conexões é essencial para um turismo que seja verdadeiramente inclusivo e transformador. A experiência no Havaí é um convite para que todas as pessoas LGBTQIA+ reflitam sobre seu papel enquanto viajantes e aliados, valorizando as histórias e as lutas que moldam cada destino.
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