Juiz pioneiro e LGBTQ+ expõe abusos e pede reparação para veteranos vítimas do preconceito militar
Em uma poderosa e inédita palestra póstuma realizada no Imperial War Museum, em Londres, o falecido Lord Terence Etherton fez um contundente diagnóstico sobre o histórico banimento de pessoas LGBTQ+ nas Forças Armadas do Reino Unido, vigente entre 1967 e 2000. Reconhecido como o primeiro juiz sênior abertamente gay da Inglaterra e País de Gales, Etherton expôs as consequências devastadoras da política militar que perseguiu e expulsou integrantes da comunidade LGBTQ+ por décadas.
Um retrato cruel da homofobia institucional
Na fala preparada antes de sua morte, em maio de 2025, e lida pelo ator e parlamentar Lord Michael Cashman, Etherton revelou um cenário marcado por “uma cultura chocante de homofobia, bullying, chantagem, abusos sexuais, investigações abusivas da orientação sexual, exames médicos humilhantes incluindo terapias de conversão, demissões sumárias e impactos profundos na saúde mental, moradia, emprego e relacionamentos pessoais”.
Ele condenou a homofobia institucionalizada, que dava à polícia militar carta branca para conduzir investigações obsessivas, abusivas e brutais contra militares LGBTQ+. A palestra foi mediada pelo ator e ativista LGBTQ+ Russell Tovey, em parceria com a ONG Fighting With Pride, que apoia veteranos afetados.
Reparações e legado em risco
O juiz também abordou o tema das compensações financeiras, que atualmente oferecem até £50 mil para militares expulsos e até £20 mil para outros impactados. Desde dezembro de 2024, mais de 1.300 pessoas solicitaram reparação, mas o ritmo lento das aprovações tem gerado preocupação sobre a efetividade do processo.
Peter Gibson, CEO da Fighting With Pride, destacou que “nossos veteranos já esperaram demais. É hora de todos receberem o que lhes é devido” e alertou que a demora pode apagar o legado de Etherton.
Passos importantes e o futuro da luta
Algumas das recomendações do juiz já foram implementadas, como o pedido oficial de desculpas do primeiro-ministro Rishi Sunak em 2023, a inauguração do memorial LGBTQ+ das Forças Armadas pelo Rei Charles III e a restauração de patentes e insígnias para os veteranos afetados.
No entanto, a concretização plena do relatório depende agora do compromisso do Ministério da Defesa britânico em honrar a justiça e a dignidade da comunidade LGBTQ+ que serviu ao país sob condições de extrema discriminação.
Esta denúncia feita pelo Lord Etherton transcende o âmbito militar e reverbera como um chamado urgente para reconhecer e reparar as feridas históricas da homofobia institucional. Para a comunidade LGBTQ+, é um lembrete do preço que tantas pessoas pagaram por sua identidade e um convite para manter viva a luta por inclusão e respeito em todos os espaços, inclusive os mais tradicionais e conservadores.
Ao revelar essa face cruel das Forças Armadas, Etherton não apenas homenageia os veteranos silenciados, mas também inspira uma reflexão profunda sobre como o preconceito institucional ainda pode se esconder sob leis e políticas. Sua voz permanece essencial para que a comunidade LGBTQ+ continue conquistando espaços de dignidade e visibilidade, especialmente em ambientes que historicamente negaram sua existência.