Artista trans mistura ancestralidade mexica e resistência queer em obra inovadora no REDCAT, Los Angeles
Lu Coy, artista queer de múltiplas linguagens, traz para o palco uma experiência artística poderosa e transformadora com Becoming the Moon, uma ópera que resgata e reinterpreta narrativas ancestrais mexicas sob uma perspectiva queer e decolonial. Com estreia marcada no festival New Original Works (NOW), no renomado teatro REDCAT em Los Angeles, a obra é um mergulho interdisciplinar que conecta música, dança, poesia e artes visuais para contar a história dos deuses genderfluid Tecciztecatl e Coyolxauhqui, personagens do códice do século XVI, Florentine Codex.
Uma jornada de transformação e resistência
Inspirado na trajetória de Tecciztecatl, que foi rejeitado por sua delicadeza e depois transformado na deusa da lua, o espetáculo traça um paralelo com as próprias vivências de Lu Coy, que enfrentou exclusão em ambientes conservadores da música clássica antes de encontrar acolhimento na cena queer e latina de Los Angeles. Essa narrativa de rejeição seguida de emancipação ecoa na força da comunidade LGBTQIA+ que muitas vezes precisa se reinventar nas margens para florescer.
Colaboração e interdisciplinaridade na criação
A construção de Becoming the Moon é fruto de um coletivo criativo que inclui diretores, coreógrafos, animadores e pesquisadores, todos alinhados para equilibrar elementos musicais, visuais e narrativos. A pesquisa profunda no códice e nas tradições indígenas guiou a escolha dos instrumentos e das formas de expressão, valorizando sons pré-colombianos como conchas e tambores, e resgatando o simbolismo do universo mexica.
Queer como prática de reexistência
Para Lu Coy, queerness vai além de gênero e sexualidade: é uma forma de contar histórias que coloca no centro aqueles que a história oficial marginalizou como “monstros” ou “fracassos”. Ao valorizar esses personagens e linguagens esquecidas, como o nahuatl e as línguas judaicas yiddish e ladino, Lu cria uma arte que desafia o colonialismo cultural e celebra identidades plurais.
Música como arma de solidariedade e memória
Em um momento político global tenso, Lu Coy reafirma o poder da música como ferramenta de resistência, especialmente em contextos de opressão. Um exemplo emblemático foi sua liderança em um protesto anti-sionista em Los Angeles, onde conduziu milhares em cânticos em yiddish e ladino, conectando memórias históricas à luta por justiça e liberdade. Essa prática reafirma a importância das raízes culturais e a interseccionalidade das lutas por direitos humanos.
Becoming the Moon não é apenas uma obra artística; é um convite para que a comunidade LGBTQIA+ e aliadas/os reflitam sobre suas próprias histórias de exclusão, resistência e transformação. Lu Coy nos mostra que recuperar narrativas ancestrais e reinventá-las sob um olhar queer é também um ato político e espiritual, uma maneira de iluminar caminhos para um futuro mais inclusivo e plural.
Essa obra ressoa especialmente para o público LGBTQIA+ por reafirmar que nossas identidades e histórias, por mais invisibilizadas que tenham sido, possuem uma força ancestral que pode nos guiar e fortalecer. Em tempos de crescente intolerância, trabalhos como o de Lu Coy são faróis de esperança e resistência cultural, nos lembrando que a arte é um terreno sagrado para reconstrução de si e da comunidade.
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