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Movimentos queer podem aprender com a luta pelos direitos das pessoas com deficiência

Inclusão, representatividade e justiça: lições fundamentais do movimento de direitos das pessoas com deficiência para a comunidade LGBTQIA+
Movimentos queer podem aprender com a luta pelos direitos das pessoas com deficiência

Inclusão, representatividade e justiça: lições fundamentais do movimento de direitos das pessoas com deficiência para a comunidade LGBTQIA+

Em um encontro histórico realizado recentemente em Goa, milhares de pessoas com deficiência, artistas, representantes governamentais e aliados se reuniram para celebrar o Purple Fest 2025, um evento que simboliza a luta por inclusão, acessibilidade e direitos. Organizado pelo Gabinete do Comissário Estadual para Pessoas com Deficiência de Goa, o festival se consolidou como uma das maiores plataformas da Índia para visibilizar e avançar a pauta das pessoas com deficiência.

Foi nesse cenário que a fundadora do QAble, coletivo que representa pessoas queer com deficiência, participou com o estande “Orgulho e Acesso”. Com uma abordagem simples e acolhedora, o espaço convidava os visitantes a aprenderem mais sobre a interseccionalidade entre as identidades LGBTQIA+ e deficiência, com quizzes e materiais educativos que incentivavam o diálogo e o reconhecimento de que ser queer e deficiente é uma combinação legítima e digna de pertencimento.

Modelos que o movimento queer pode refletir

Durante o festival, ficou claro que os modelos teóricos que moldam a percepção da deficiência também espelham as formas como a sociedade encara as pessoas queer. O modelo moral ou religioso, por exemplo, que associa diferença a pecado ou punição, ainda é usado para justificar a queerfobia e o preconceito, inclusive em contextos religiosos no Brasil e no mundo.

Outro modelo presente é o da caridade, que reduz tanto pessoas com deficiência quanto queer a figuras de pena, merecedoras de ajuda, não de direitos. Muitas políticas públicas e narrativas midiáticas reforçam essa visão, apresentando essas populações como vítimas passivas, o que perpetua a exclusão.

Além disso, o modelo médico, que patologiza a identidade LGBT+ e a deficiência, ainda impacta negativamente a vida de jovens queer, pessoas intersexo e trans, que enfrentam práticas como a terapia de conversão e intervenções médicas não consensuais, negando-lhes saúde afirmativa e autonomia.

O poder do modelo social e a construção da inclusão

O salto transformador vem do modelo social da deficiência, que desloca o foco da pessoa para as barreiras e estruturas sociais que impedem a plena participação. Se um ambiente não é acessível, o problema está no ambiente, não na pessoa. Essa abordagem pode ser aplicada ao universo queer, para questionar as estruturas que discriminam e marginalizam, seja na escola, no trabalho ou em serviços públicos.

O movimento queer tem muito a ganhar ao aprender com essa perspectiva, adotando uma postura firme de que inclusão não é um favor, mas uma questão de justiça. A luta por acessibilidade e direitos inegociáveis, independentemente da conjuntura política, fortalece o posicionamento político e amplia a solidariedade.

Além disso, a solidariedade entre diferentes identidades dentro do movimento de pessoas com deficiência mostra o caminho para a comunidade LGBTQIA+: abraçar a diversidade interna, considerando raça, classe, capacidades e outras vivências, para construir alianças amplas e representativas.

Outro ensinamento valioso é a estratégia de começar com demandas concretas e alcançáveis, criando precedentes legais e sociais que impulsionam avanços maiores. Garantir direitos claros em saúde, educação e combate à discriminação pode pavimentar um futuro mais inclusivo para todos.

Por fim, a liderança das pessoas diretamente afetadas é essencial. Movimentos que colocam as vozes das pessoas queer com deficiência e outras múltiplas marginalizações no centro da luta fortalecem suas agendas e promovem mudanças reais.

Construindo pontes para um futuro mais justo

O Purple Fest foi uma celebração dos avanços conquistados, mas também um alerta sobre os desafios ainda a enfrentar. Se o orgulho LGBTQIA+ precisa de uma rampa para ser acessível, é urgente que o movimento queer construa essa rampa junto com solidariedade, estratégia, amor e orgulho, aprendendo com outras lutas irmãs, como a dos direitos das pessoas com deficiência.

Essa conexão entre os movimentos potencializa a transformação social, garantindo que todas as identidades sejam respeitadas e incluídas em um mundo onde a diversidade seja a norma e a exclusão, uma exceção.

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