Espetáculo celebra a memória LGBTQIA+ e a resistência da primeira boate gay da capital durante a ditadura militar
Em Brasília, um resgate cultural e afetivo acontece no palco com a peça O Arco-íris do Concreto, que revive a história da New Aquarius, a primeira boate gay da capital federal. Surgida em meio ao regime militar, essa boate se tornou um refúgio para a comunidade LGBTQIA+, um espaço de liberdade, resistência e expressão artística em tempos de repressão.
A memória viva da noite LGBTQIA+ em Brasília
Localizada no subsolo do Conic, a New Aquarius nasceu em 1974 como um bar discreto para “entendidos”, como a comunidade LGBTQIA+ era chamada na época. Em 1976, o espaço se transformou em uma discoteca que reunia artistas, intelectuais, estudantes e boêmios que buscavam um lugar para ser e celebrar sua identidade.
Essa atmosfera única é trazida à vida na peça escrita e dirigida por Sérgio Maggio, que narra o encontro entre gerações da comunidade queer: a transformista Mona Mone de Liz Taylor, prestes a se despedir da cidade, a jovem drag Luna tentando se encontrar no presente, e Martina, que busca compreender as origens da história de amor de seus pais, frequentadores da New Aquarius.
Resistência e celebração em cena
Com um elenco vibrante, a montagem mistura o melodrama e a autobiografia, costurando relatos pessoais com o contexto da violenta repressão do regime militar contra LGBTQIA+. As coreografias da Drag Queen K-Halla e os figurinos inspirados no cabaré criam um clima intenso de celebração da diversidade, enquanto a iluminação de Lemar Resende faz o globo espelhado girar ao ritmo da dança, simbolizando o movimento contínuo da luta por visibilidade e direitos.
Para o ator Hugo Leonardo, que interpreta Mona Mone, colorir o concreto de Brasília com as cores do arco-íris é uma forma poderosa de reivindicar a existência LGBTQIA+ em um cenário marcado pela austeridade e pelo silêncio.
Entre passado e presente: por que essa história importa
O Arco-íris do Concreto não é apenas um convite para recordar a New Aquarius; é um chamado para refletir sobre a importância dos espaços de acolhimento queer em tempos de opressão. Sérgio Maggio destaca que, após anos de pesquisa e uma espera interrompida pela pandemia, o espetáculo chega para fortalecer a memória LGBTQIA+ e mostrar como a arte pode ser um instrumento de resistência.
O diretor também revela que a linguagem da peça dialoga com influências do melodrama, utilizando elementos que amplificam emoções e histórias, mas também os questionam, numa estética que lembra o trabalho de cineastas como Pedro Almodóvar, referência para muitas narrativas queer.
New Aquarius: um marco na história LGBTQIA+ de Brasília
Fundada pelo dramaturgo Oswaldo Gessner, a New Aquarius não foi apenas um ponto de encontro, mas um símbolo de coragem e liberdade. Entre seus frequentadores, nomes como Lorraine Star, Michelle Presley e Diana Power marcaram época. A boate era um palco onde artistas transformistas brilhavam, e onde a comunidade encontrava espaço para se expressar em uma cidade marcada pela rigidez política.
Informações para quem quer prestigiar
O espetáculo tem sessões gratuitas no Sesc Silvio Barbato, no Setor Comercial Sul, em datas selecionadas entre setembro e outubro, com acessibilidade garantida em algumas apresentações. A classificação indicativa é de 16 anos, e os ingressos podem ser adquiridos pelo Sympla.
‘O Arco-íris do Concreto’ é uma celebração da história e da identidade LGBTQIA+, um convite para que todos possamos lembrar e honrar aqueles que lutaram para que hoje possamos viver com mais orgulho e liberdade em Brasília e no Brasil.