Cinema e TV repetem estereótipos LGBTQIA+ que servem apenas para destacar protagonistas heterossexuais
Em um cenário onde a diversidade LGBTQIA+ conquista cada vez mais espaço, o audiovisual brasileiro e internacional ainda mantém um incômodo padrão: o uso de personagens gays como meros apoios cômicos ou acessórios para que protagonistas heterossexuais brilhem. Essa estratégia, disfarçada de representatividade, reforça estereótipos ultrapassados e limita a profundidade e autonomia das personagens LGBTQIA+.
O padrão repetido no cinema e na TV
Recentemente, o filme Perrengue Fashion trouxe à tona esse modelo. A trama acompanha uma influenciadora de moda interpretada por Ingrid Guimarães, que parte para a Amazônia com seu assistente Taylor, vivido pelo comediante Rafa Chalub. Apesar do esforço para apresentar uma figura LGBTQIA+, o personagem é reduzido a um papel de escudeiro cômico, reforçando clichês ao invés de oferecer uma representação rica e autônoma.
Esse formato não é novidade. Em O Diabo Veste Prada (2006), o personagem Nigel, interpretado por Stanley Tucci, é um exemplo clássico: um gay carismático e competente, mas cuja função é basicamente apoiar a protagonista sem desenvolver seus próprios conflitos ou desejos. Na televisão, séries como Sex and the City reforçaram essa dinâmica. Personagens como Stanford Blatch e Anthony Marentino são usados quase exclusivamente como alívio cômico ou conselheiros emocionais, sem profundidade.
O caso brasileiro: Crô e a repetição do estereótipo
No Brasil, a situação é ainda mais evidente no personagem Crô, da novela Fina Estampa. Interpretado por Marcelo Serrado, Crô é o mordomo gay da vilã Tereza Cristina, cuja representação reforça a imagem do gay dedicado, engraçado e submisso, sempre à sombra da protagonista. O sucesso do personagem, que ganhou até filme próprio, indica que o público e a indústria ainda encontram conforto nesses estereótipos, dificultando avanços para narrativas mais complexas e autênticas.
Representatividade além do clichê
É fundamental que o audiovisual evolua para além do uso de personagens LGBTQIA+ como meros coadjuvantes ou fontes de humor. A comunidade merece ser retratada em sua pluralidade, com personagens que tenham histórias, desejos e conflitos próprios, livres de estigmas e estereótipos. Essa mudança não só enriquece as narrativas como também promove uma identificação genuína e fortalece a luta por igualdade e respeito.
Ao manter personagens gays como “pedestais” para protagonistas heterossexuais, a indústria cultural perpetua um padrão que invisibiliza e limita a diversidade LGBTQIA+. Para além do entretenimento, essa representação impacta a autoestima e o reconhecimento social da comunidade, reforçando a necessidade urgente de novas histórias que celebrem a complexidade e autonomia das pessoas LGBTQIA+.
É hora de romper com velhos clichês e abrir espaço para narrativas que verdadeiramente representem as vidas e experiências LGBTQIA+. Quando o audiovisual se compromete com essa transformação, todos ganham: o público, a cultura e a sociedade como um todo.