Rede de ‘centros de reabilitação’ submetem pessoas queer a torturas e pseudoterapias no país
Na Rússia, a homofobia institucional ganhou uma dimensão assustadora e cruel. Desde que o governo russo classificou o movimento LGBTQIA+ como extremista, uma rede de “centros de reabilitação” clandestinos tem submetido pessoas queer a tratamentos desumanos, que envolvem isolamento, tortura psicológica, uso forçado de medicamentos e práticas pseudocientíficas. Essas “pseudoterapias” são vendidas como “cura” para a homossexualidade e transgeneridade, mas na verdade configuram uma violação brutal dos direitos humanos.
O banimento e a perseguição oficial
Há mais de dois anos, o Supremo Tribunal russo rotulou o movimento LGBTQIA+ como extremista, proibindo qualquer manifestação pública ou apoio à comunidade. Mais de cem pessoas já foram condenadas por participarem de atividades ligadas à causa, incluindo o uso de símbolos como a bandeira do arco-íris. Paralelamente, o governo estimula famílias a encaminharem seus filhos para centros que prometem “corrigir” a orientação sexual ou identidade de gênero, utilizando métodos que ferem a dignidade e a integridade física e mental.
Histórias de dor e resistência
O relato de Nadja Mitjaginová, professora de inglês e lésbica, é um exemplo doloroso dessa realidade. Após se assumir para sua psicóloga, ela foi convencida de que sua orientação era fruto de trauma e poderia ser “curada”. Durante o tratamento, Nadja foi obrigada a associar o afeto por mulheres a sensações de nojo, numa tentativa cruel de anular seus sentimentos. Ela cresceu em um ambiente onde o Estado e a família reforçavam o estigma, o que a levou a anos de sofrimento e isolamento, até conseguir aceitar sua identidade e emigrar para a Argentina, onde hoje vive com sua esposa.
Igor, um homem trans, passou por algo igualmente traumático. Enviado por sua mãe a um centro que dizia tratar depressão, ele enfrentou ameaças de morte caso não assinasse um termo de consentimento para o tratamento, que na verdade era uma prisão disfarçada de reabilitação. Lá, sofreu humilhações, castigos e vigilância constante, perdendo peso e saúde mental. Somente após mais de um ano conseguiu retomar sua vida e reconhecer sua identidade, apesar do repúdio familiar.
A retórica do Estado e o impacto social
Na Rússia, a comunidade LGBTQIA+ é frequentemente demonizada como ameaça moral e social. Líderes políticos e mídia estatal equiparam a orientação sexual diversa a uma “arma híbrida” do Ocidente contra os valores russos, justificando as perseguições sob o pretexto de proteger crianças e a sociedade. Em 2023, foi criado um instituto psiquiátrico especial para “estudar” pessoas com “identidade de gênero perturbada”, reforçando a patologização do que é natural e legítimo.
Estatísticas oficiais de 2021 ainda indicam que quase um quarto dos russos considera pessoas LGBTQIA+ “doentes” que precisam de tratamento. Essa visão alimenta o ciclo de violência institucionalizada, que ignora as denúncias de abusos e mantém a clandestinidade dos centros de “cura”.
O que está em jogo para a comunidade LGBTQIA+
Essas práticas de pseudoterapia e repressão não só violam direitos fundamentais, como deixam marcas profundas na saúde mental e emocional das pessoas LGBTQIA+ na Rússia. O medo, a vergonha e o trauma são legados difíceis de superar, especialmente em um contexto onde o Estado se posiciona como inimigo da diversidade.
É urgente ampliar a visibilidade dessas violações para pressionar por mudanças e garantir a proteção e o respeito às identidades queer. A resistência dessas pessoas, mesmo diante de tanto sofrimento, é um testemunho poderoso da luta por liberdade, dignidade e amor próprio.
Para a comunidade LGBTQIA+, a situação na Rússia representa um alerta sombrio sobre os perigos da intolerância institucionalizada. É também um chamado para a solidariedade global, para que nenhuma pessoa seja submetida a tratamentos cruéis sob o pretexto da “cura”. O reconhecimento e a celebração da diversidade são essenciais para construir sociedades mais justas e acolhedoras, onde todos possam viver suas verdadeiras identidades com orgulho e segurança.