Escritor árabe-queer reflete sobre violência, invisibilidade e resistência LGBTQIA+ na região
O Médio Oriente, palco de tensões e conflitos históricos, esconde também histórias pouco contadas, especialmente as das pessoas LGBTQIA+. O escritor Saleem Haddad, de ascendência palestino-libanesa e iraquiana-alemã, atualmente radicado em Lisboa, compartilha suas reflexões sobre como a guerra impacta diretamente essa comunidade, que muitas vezes é invisibilizada no meio do caos.
Identidade queer em tempos de conflito
Para Haddad, a violência não é o único problema, mas a maneira como ela é narrada. A desumanização das vítimas, a redução de vidas a estatísticas e a ausência de luto por certos grupos geram um entorpecimento moral perigoso. Em meio a bombardeios e crises humanitárias, as pessoas LGBTQIA+ enfrentam a perda dos poucos espaços seguros que tinham para se expressar e sobreviver.
“A identidade nunca se suspende, mesmo nas situações mais extremas. Ela se entrelaça com a sobrevivência, que é moldada por fatores políticos, econômicos, de gênero e sexualidade”, destaca o autor.
Resiliência e redes de cuidado invisíveis
Apesar da repressão e do perigo, Haddad ressalta que as comunidades queer no Médio Oriente desenvolvem formas de resistência e cuidado mútuo que são frequentemente ignoradas pelo olhar externo. Seu livro Guapa traz à tona essa complexidade, mostrando que opressão e solidariedade coexistem, assim como dor e alegria, em uma narrativa que desafia a vitimização simplista.
Exílio, invisibilidade e sobrevivência
O autor ainda aborda como a identidade queer pode se tornar uma forma de exílio, mesmo dentro da própria casa, e como a invisibilidade pode ser uma estratégia de sobrevivência dolorosa. Essa fragmentação da identidade é uma negociação constante entre o que se revela e o que se esconde, um processo que pode ser desgastante para muitos.
Uma visão crítica e esperançosa
Haddad critica a visão simplista do Ocidente que pinta o Médio Oriente como um território uniforme de repressão, alertando que essa narrativa serve para desumanizar e justificar violência contra a região. Ele defende que a literatura pode criar espaços de liberdade e resistência, abrindo caminhos para uma compreensão mais profunda e humana das experiências queer em contextos adversos.
Em Lisboa, onde vive hoje, Haddad sente-se mais seguro para viver sua identidade, mas seu coração permanece junto à família em Beirute, vivendo sob constante ameaça. Ainda assim, mantém esperança de que a aceitação plena para pessoas LGBTQIA+ no Médio Oriente seja possível no futuro, reconhecendo que a tolerância é um processo dinâmico e incerto.
Este olhar sensível e corajoso sobre a luta queer no Médio Oriente em tempos de guerra é um chamado para que a comunidade LGBTQIA+ e seus aliados globalmente reconheçam as múltiplas camadas da resistência e da vulnerabilidade. É também um lembrete poderoso de que, mesmo em meio às sombras da violência, a busca por identidade, pertencimento e liberdade não se apaga — ela floresce, muitas vezes de formas invisíveis, mas profundamente reais.
Para a comunidade LGBTQIA+, a história de Haddad reforça a importância de visibilizar narrativas diversas, que vão além da vitimização e celebram a resiliência e a solidariedade. Em tempos de conflito, reconhecer essas vozes é um ato político e humano essencial para a construção de um mundo mais inclusivo e compassivo.
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