Crackdown crescente prende dezenas de homens LGBTQIA+ no Senegal, enquanto líderes religiosos pedem penas mais duras
O final de 2025 foi marcado por uma dura repressão contra a comunidade LGBTQIA+ no Senegal. Ao menos 11 homens foram condenados por “atos não naturais” – uma expressão usada para criminalizar relações entre pessoas do mesmo sexo – e outros 11 aguardam julgamento. A situação revela um aprofundamento do cerco à população queer no país.
Prisões e julgamentos em Thiès e outras regiões
No dia 21 de dezembro, uma operação policial em um apartamento no bairro Escale, na cidade de Thiès, resultou na prisão de cinco homens suspeitos de homossexualidade. Quatro deles admitiram sua orientação sexual diante das provas apresentadas, como fotos e mensagens íntimas encontradas em seus celulares. Apenas o proprietário do imóvel contestou a versão da promotoria, alegando não estar presente no momento da abordagem policial.
Apesar das negativas, o Ministério Público solicitou pena de um ano de prisão para todos os cinco acusados. No Senegal, a homossexualidade é punida com penas que variam de 1 a 5 anos de prisão, além de multas que podem chegar a 2.200 euros. Este caso se soma a uma série de outras detenções recentes, como a de 18 homens na região de Diourbel, alguns dos quais foram condenados a dois anos de prisão por conspiração criminosa e atos indecentes, enquanto outros ainda aguardam julgamento.
Em dezembro, também houve prisões em Rufisque, onde sete homens foram detidos após denúncias de vizinhos, seguindo o mesmo padrão de perseguição. Ao todo, 30 homens foram presos no mês, com 27 deles mantidos em prisão preventiva sob suspeita de “atos não naturais”.
Pressão religiosa por penas mais severas
Este aumento das prisões ocorre em meio a clamores de lideranças religiosas para endurecer as punições contra pessoas LGBTQIA+. Serigne Kosso Mbacké, filho do líder espiritual máximo dos Mourides, uma das maiores confrarias islâmicas do Senegal, tem pressionado o governo para que aumente a pena para até 15 anos de prisão para homossexuais.
O partido no poder desde março de 2024, Patriotes Africains du Sénégal pour le Travail, l’Ethique, et la Fraternité (PASTEF), conta com forte apoio de grupos anti-LGBTQIA+, o que fortalece a agenda de criminalização e repressão.
Impacto para a comunidade LGBTQIA+ senegalesa
Essa intensificação da repressão criminaliza ainda mais a existência e a expressão da comunidade LGBTQIA+ no Senegal, criando um ambiente de medo, exclusão e violação dos direitos humanos. A divulgação da sorologia de um dos acusados pela imprensa local evidencia o estigma e a exposição indevida que essas pessoas enfrentam.
O uso do sistema judicial para punir a orientação sexual e identidade de gênero reforça um ciclo de violência institucional que dificulta a luta por reconhecimento e proteção. Apesar disso, a resistência e a solidariedade dentro e fora do país continuam sendo essenciais para apoiar quem vive sob essa sombra.
Este cenário demonstra como a palavra-chave “atos não naturais” é um instrumento legal usado para perseguir e aprisionar pessoas LGBTQIA+ no Senegal, evidenciando a urgência de debates sobre direitos humanos e respeito à diversidade no país.
Para a comunidade LGBTQIA+, esse momento reforça a necessidade de união e visibilidade, mesmo diante da repressão crescente. Culturalmente, a criminalização aprofunda o isolamento social, mas também revela a coragem daqueles que resistem, desafiando normas e abrindo caminho para futuras conquistas. A luta no Senegal é um lembrete contundente de que o respeito e a dignidade não podem ser negociados, e que a voz LGBTQIA+ merece espaço e proteção em todos os cantos do mundo.