Produção de 2026 revive resistência da Coligay contra a homofobia nos estádios do Brasil
Em meio a um futebol ainda marcado pela homofobia latente, uma nova série traz à tona uma história que inspira: a da Coligay, primeira torcida LGBTQIA+ do Brasil, que surgiu em Porto Alegre na década de 1970. A produção, prevista para estrear em 2026, revive a trajetória dessa torcida do Grêmio, que se tornou um marco de resistência e representatividade num ambiente tradicionalmente hostil para a comunidade LGBTQIA+.
Coligay: paixão, coragem e luta nos estádios
Na época da ditadura militar, a Coligay enfrentava não só a repressão política, mas também o preconceito explícito nas arquibancadas. Para se proteger, seus integrantes chegaram a aprender caratê e se fortaleceram para combater xingamentos e agressões. Entre 1977 e 1983, período em que a torcida existiu, o Grêmio conquistou títulos importantes, e a presença vibrante da Coligay transformava o estádio em um espaço de carnaval, alegria e afirmação.
O ator Irandhir Santos, que interpreta Ramon na série, mergulhou nas gravações em Porto Alegre para dar vida a essa história. Ele reconhece o paradoxo do futebol: um espaço de paixão, mas também de preconceitos arraigados. “O futebol é um ambiente masculino, heteronormativo e machista. As torcidas ainda reproduzem essas dinâmicas, o que torna o ambiente hostil para pessoas LGBTQIA+”, comenta.
Homofobia nos estádios: uma luta que continua
Apesar dos avanços, episódios de homofobia ainda acontecem nas arquibancadas e dentro dos clubes. Dados recentes do Superior Tribunal de Justiça Desportiva indicam dezenas de casos julgados de discriminação homofóbica desde 2022, incluindo punições para jogadores e clubes. Comentários preconceituosos, como o infeliz episódio envolvendo o técnico Abel Braga, evidenciam que a luta contra a lgbtfobia no futebol está longe de acabar.
Organizações como o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ trabalham para denunciar e combater esses abusos, reunindo torcidas de diversos clubes brasileiros. No entanto, rivalidades locais, como a entre Grêmio e Internacional, ainda refletem dificuldades para acolher oficialmente torcidas LGBTQIA+.
Resgatando memórias e inspirando novas gerações
A história da Coligay foi durante anos tratada como uma lenda, alvo de deboche até que o livro “Coligay – Tricolor e de Todas as Cores” (2014), de Léo Gerchmann, e a pesquisa da historiadora Luiza Aguiar dos Anjos deram visibilidade ao grupo. A série e o filme baseados nesses relatos prometem mostrar a importância da representatividade e da resistência, lembrando que as conquistas sociais são recentes e frágeis.
Volmar Santos, idealizador da torcida e dono da boate Coliseu, ainda vive em Passo Fundo e acompanha o resgate dessa memória com orgulho. Para ele, a Coligay simboliza a coragem de ser quem se é, mesmo em tempos difíceis.
O reflexo atual nas arquibancadas
Hoje, torcedores LGBTQIA+ como Felipe Rodrigues dos Santos e Renan Barbosa Salgado, que vivem a paixão pelo Grêmio juntos, ainda enfrentam o desafio de demonstrar afeto publicamente nos estádios. “O estádio é um espelho da sociedade, e ainda é um terreno muito hostil”, afirma Felipe. Renan reforça que a abstração de insultos homofóbicos é uma forma de autoproteção, mas que a vontade de viver o futebol com liberdade é grande.
O grafite “Coligay Vive”, pichado na arquibancada do antigo estádio Olímpico, é um símbolo vivo de resistência e inspiração para quem luta por um futebol mais inclusivo.
Ao revisitar essa história, a série não apenas homenageia pioneiros da luta LGBTQIA+ no esporte, mas também provoca reflexões urgentes sobre o quanto avançamos e o quanto ainda precisamos caminhar para que o futebol seja um espaço de pertencimento e respeito para todas as identidades.
Para a comunidade LGBTQIA+, a lembrança da Coligay representa um legado de coragem e amor que desafia o machismo e a intolerância. É um chamado para que novas gerações se unam e transformem os estádios em espaços de celebração da diversidade, onde a paixão pelo futebol se mistura à luta por direitos e visibilidade. Em tempos em que a homofobia ainda ecoa nas arquibancadas, revisitar essa história é um ato de resistência e esperança.