Série deixa casal queer à margem e reforça trope ‘bury your gays’ em trama que merecia mais representatividade
Em uma época em que a representatividade LGBTQIA+ é urgente e necessária, a série The Gilded Age decepciona ao encerrar com a morte chocante de John Adams, parceiro de Oscar van Rhijn, deixando o único casal queer da trama isolado e sem espaço para explorar seu amor.
Após temporadas em que a relação entre os dois homens quase não ganhou cenas significativas, o terceiro ano parecia disposto a aprofundar o vínculo dos personagens. John, interpretado por Claybourne Elder, surge como uma âncora para Oscar (Blake Ritson) após a perda da fortuna familiar, mas a súbita morte dele no episódio mais recente não apenas apaga essa esperança, como também reforça o desgastado trope do “bury your gays” – quando personagens LGBTQIA+ são mortos para impulsionar narrativas ou dramas.
Amor reprimido e invisibilidade na tela
Desde a estreia, o programa evitou mostrar qualquer expressão romântica ou afetiva entre John e Oscar, mantendo o casal distante, mesmo em momentos privados. Essa abordagem contrasta fortemente com a série anterior do criador Julian Fellowes, Downton Abbey, que apresentou Thomas, um personagem gay, com uma vida amorosa mais aberta e cenas de paixão, ainda que breve e limitada.
Enquanto os personagens heterossexuais da The Gilded Age exibem uma tensão sensual palpável, o casal gay se mantém quase assexuado e emocionalmente contido, como se amar fosse um fardo a ser suportado, não uma celebração da liberdade. As poucas declarações de amor entre John e Oscar soam abruptas e distantes, reforçando a invisibilidade e a censura ao desejo queer dentro do universo da série.
Repetição de um padrão tóxico
Oscar, um dos personagens mais privilegiados da trama por sua origem aristocrática, acaba reduzido a um símbolo de sofrimento e isolamento. Diferente dos personagens heterossexuais que vivem dramas e amores intensos, a jornada queer na série é marcada por perdas, silêncios e ausência de voz. Isso evidencia um olhar ultrapassado e limitado sobre a experiência LGBTQIA+, que mais sofre do que vive plenamente o amor e a felicidade.
O roteiro, ao matar John, não só priva o público de ver um romance queer florescer em uma produção de época, como também empurra Oscar de volta para o armário, reforçando a ideia de que personagens gays devem permanecer apagados e sem esperança em narrativas históricas.
O que falta para a representatividade real?
Em 2025, ter personagens LGBTQIA+ apenas como coadjuvantes silenciosos já não é suficiente. É preciso que suas histórias sejam centrais, complexas e cheias de nuances, representando o amor, a luta e a alegria de forma autêntica. The Gilded Age desperdiça a chance de romper com velhos clichês e oferecer ao público queer uma narrativa rica e emocionante no cenário da alta sociedade do século XIX.
Para a comunidade LGBTQIA+ que acompanha o site acapa.com.br, é fundamental que as produções televisivas e cinematográficas avancem na representatividade, mostrando que o amor queer é diverso, pleno e merece ser celebrado em todas as épocas, sem silenciamentos ou mortes forçadas para drama.
Enquanto isso, espectadores e espectadoras seguem atentos e críticos, exigindo histórias que honrem a vivência LGBTQIA+ com respeito, coragem e verdade.
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