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Trackie McLeod e a cultura lad: memória queer e resistência urbana

O artista escocês transforma símbolos da cultura trabalhadora em crítica afiada e acolhedora para a comunidade LGBTQIA+
Trackie McLeod e a cultura lad: memória queer e resistência urbana

O artista escocês transforma símbolos da cultura trabalhadora em crítica afiada e acolhedora para a comunidade LGBTQIA+

Trackie McLeod, artista nascido em Glasgow em 1993, mergulha de cabeça na cultura lad — aquela cultura tradicionalmente masculina, ligada a bares, futebol e uma forma performática de ser “descolado” — para desconstruir seus códigos e revelar as tensões que ela carrega, especialmente para mulheres, pessoas trans e queer. Sua obra é um convite para olhar com sarcasmo e afeto para as marcas do passado e as desigualdades do presente, dando voz e visibilidade a quem nem sempre se sente seguro nos espaços públicos.

Um Nissan Micra xadrez e outras provocações visuais

Em Danniella (2024), McLeod insere um Nissan Micra coberto com estampa Burberry — um símbolo de aspiração e classe trabalhadora britânica — e desafia o espectador a confrontar seus preconceitos sobre gostos e identidade. A peça é ao mesmo tempo camp e confrontadora, um objeto cotidiano elevado a arte para questionar quem tem direito a pertencer e a ser respeitado.

Outra obra marcante, Monica, Erica, Rita (2024), apresenta uma camisa de futebol enquadrada, estampada com o número 3 e a palavra “SHAGGER” onde normalmente estaria o nome de um jogador. A peça desarma a bravata machista típica da cultura lad, expondo-a como uma fantasia imposta e muitas vezes sufocante.

Cuidado, vigilância e segurança nas ruas

McLeod leva para o espaço público frases cotidianas carregadas de significados profundos, como o clássico “Text me when you get home” (Me manda mensagem quando chegar em casa). Originalmente uma preocupação materna, essa frase ganha força política ao ser exposta em outdoors, lembrando que segurança é um privilégio nem sempre garantido para mulheres, pessoas trans e outras minorias.

Ao transformar essa frase em arte pública, McLeod evidencia a vigilância constante e o medo que acompanham os deslocamentos diários desses grupos, e reforça a importância da solidariedade e do cuidado coletivo, sem soar paternalista ou didático.

Do espaço da galeria para as ruas

Um dos compromissos do artista é tirar sua arte das galerias tradicionais — muitas vezes inacessíveis e elitizadas — para dialogar diretamente com as ruas e o público diverso que as frequenta. Usar outdoors e espaços urbanos para expor suas obras amplia o alcance da mensagem, permitindo que mais pessoas se reconheçam e se envolvam na conversa.

Entre nostalgia e crítica social

A estética e referências dos anos 1990 e 2000 permeiam a obra de McLeod, ativando memórias afetivas e culturais que ressoam com sua geração e com a comunidade LGBTQIA+. Essa nostalgia não é mero conforto, mas uma ferramenta para destacar desigualdades, desafiar normas de gênero e classe, e apontar as contradições da cultura popular.

Uma arte que acolhe e provoca

O humor presente na obra de Trackie McLeod não é inocente: ele funciona como um convite para rir de si mesmo e das estruturas que nos oprimem, enquanto nos força a encarar questões difíceis sobre masculinidade, classe e identidade queer. Sua arte é um espaço de reconhecimento, onde risos e desconfortos se misturam, criando diálogos necessários para a transformação social.

Na comunidade LGBTQIA+, a obra de McLeod traz um frescor urgente, ao dar visibilidade a experiências muitas vezes invisibilizadas e ao celebrar uma cultura que, embora carregue marcas de exclusão, também pode ser reinventada com resistência e afeto. Seu trabalho é um lembrete poderoso de que a arte pode ser tanto um refúgio quanto uma arma, especialmente para quem luta diariamente por segurança e reconhecimento.

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