Produção de Mae Martin revela os segredos sombrios de um internato em Vermont com protagonismo trans
Wayward, a nova série da Netflix criada pela comediante e roteirista Mae Martin, mergulha nas profundezas obscuras da indústria que lida com adolescentes considerados problemáticos — um universo repleto de abusos e manipulação que poucos ousam expor.
A trama acompanha Alex Dempsey, um policial trans que se muda com sua esposa grávida, Laura, para a pequena cidade de Tall Pines, em Vermont, onde Laura frequentou uma instituição para jovens em situação de vulnerabilidade chamada Tall Pines Academy. Lá, os alunos são submetidos a métodos questionáveis, incluindo trabalhos forçados e jogos psicológicos que os fazem se atacar em nome da “honestidade”.
Logo, Alex percebe que a aparente tranquilidade do local esconde um sistema opressivo, amparado pela figura enigmática de Evelyn Wade, que comanda a escola e exerce controle absoluto sobre a cidade, abrigando e empregando os ex-alunos conforme sua vontade.
Amizades, abusos e resistência queer
Entre os enredos paralelos, destacam-se as jovens Leila e Abbie, amigas cujas trajetórias ilustram o impacto devastador da instituição. Enviada à academia pelos pais, Abbie é resgatada por Leila, mas ambas acabam aprisionadas nas regras rígidas e abusivas da escola, que busca quebrar os vínculos afetivos e controlar suas vidas.
Wayward não apenas denuncia as práticas abusivas, mas também explora a complexidade das relações adolescentes, trazendo à tona questões sobre identidade, afeto e a busca por pertencimento. A série é marcada por uma forte representatividade LGBTQIA+, mostrando uma comunidade diversa e acolhedora em Tall Pines, reflexo da herança hippie do local, que, apesar das contradições, oferece um ambiente relativamente livre de discriminação.
Alex e a masculinidade trans em foco
O protagonismo trans de Alex é um dos elementos mais impactantes da série. Interpretado por Mae Martin, que é não binárie, o personagem enfrenta não só os desafios de um novo emprego e uma nova cidade, mas também seus próprios conflitos internos, principalmente relacionados à violência e à busca por uma masculinidade tradicional.
Alex lida com episódios de violência desproporcional e com a pressão de corresponder a um ideal heteronormativo — ter uma esposa, um filho e um cargo de autoridade. Essa dualidade é abordada com sensibilidade, ainda que a série tenha gerado debates sobre a associação equivocada entre testosterona e agressividade, um mito prejudicial dentro e fora da comunidade trans.
Apesar das críticas, a construção do personagem vai além de estereótipos, mostrando um homem trans multifacetado, cuja identidade não se resume à transição, mas está entrelaçada às suas experiências, escolhas e falhas.
Reflexões e expectativas para a continuação
Wayward equilibra drama, mistério e crítica social, criando uma narrativa envolvente sobre poder, controle e resistência. Embora em alguns momentos a história deslize para o exagero dramático, especialmente em relação a rituais e abusos mais fantasiosos, o cerne da série permanece fiel à realidade dolorosa da indústria de adolescentes problemáticos.
O final da primeira temporada deixa portas abertas para uma possível continuação, mantendo o interesse daqueles que buscam narrativas queer com profundidade e coragem.
Para a comunidade LGBTQIA+, Wayward representa um passo importante ao colocar um homem trans no centro da história, abordando temas complexos sem deixar de lado a representatividade e o acolhimento. É uma produção que provoca, emociona e convida à reflexão, reafirmando a importância de contar histórias diversas e reais.
Se você busca uma série que mistura suspense, crítica social e protagonismo queer, Wayward é uma aposta certeira para maratonar e debater.
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