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Big Brother revelou homofobia enrustida de héteros e homossexuais

Nunca foi essa a intenção de Boninho, que acredita dirigir apenas um programa de entretenimento, mas se o Big Brother Brasil teve um grande mérito, e teve, foi o de jogar luz sobre o tema da homofobia e revelar os preconceitos tanto de hetero quanto de homossexuais.

Nesses quase três meses de duração, recebemos aqui no site A Capa todo tipo de mensagem sobre o programa, das mais exaltadas e ofensivas às mais lúdicas e inteligentes, passando pelas engraçadas ou menos risíveis. Tudo isso resultado de sua fórmula de sucesso e seu caráter midiático catártico.

Big Brother mexe com humores, alimenta paixões, ainda dá boa audiência e desperta interesse da mídia justamente por isso. O que acontece dentro da casa mais vigiada do Brasil vira notícia nos mais variados meios de comunicação.

Não à toa publicações sérias e de grande repercussão voltaram suas atenções para o programa e deram destaque em suas páginas, impressas ou virtuais, ao tema da homofobia. "R7", "Folha de S. Paulo" e "O Globo" foram alguns dos veículos que deram algum tipo de informação relacionada a isso.

O problema, no entanto, foi a qualidade do debate em torno da homofobia no programa. Primeiro que homofobia é um termo que ganhou força recentemente, pra não dizer nesta última década.  Segundo. Há mais de 20 anos o Grupo Gay da Bahia faz um relatório das mortes de homossexuais que viram notícias em jornais e na internet. E ninguém parece se importar muito com isso. Nem autoridades, nem militância, nem a fluída "comunidade LGBT".

O levantamento do GGB não é dos mais precisos, mas por ora é o único que existe. Há iniciativas em alguns governos municipais e estaduais em "mapear" a homofobia, que vai muito além de um crime de ódio.  A homofobia se dá quando um gay é xingado ou espancado na rua, por exemplo.

Um filho é expulso de casa. Um gay ou uma travesti não conseguem frequentar a escola por conta das chacotas. São situações e comportamentos homofóbicos. E a homofobia é um problema que atinge homos e heterossexuais. Dourado, por exemplo, disse no programa que, quando criança, cursava aulas de balé. "Estudante de escola estadual e cursando balé, não teve jeito", declarou.

Por conta das gracinhas e piadas que ouviu o gaúcho passou a lutar, atividade considerada masculina. Ou seja, um rapaz supostamente heterossexual sofreu na pele aquilo que qualquer criança mais afeminada em qualquer escola deste país sofre ainda hoje. O que ele faz? Procura o extremo oposto e ataca para não ser atacado, zoa para não ser zoado e bate para não apanhar.

Os garotinhos afeminados e homossexuais de hoje talvez não tenham "a sorte" de serem "machos" como o Dourado, mas pode ser que muitos desenvolvam, como ele, uma coisa muito nociva: a homofobia internalizada. Em suas zonas de conforto rechaçam o feminino que há em dentro deles e vê espelhado no outro. Isso explica o porquê de muitos comentários recebidos por aqui serem ofensas dirigidas a Dimmy Kieer e Serginho.

Se Serginho é "fútil e deslumbrado" e Dicesar era "pouco  inteligente e fofoqueiro" isso pouco tem a ver com suas sexualidades. Há heterossexuais com as mesmas características, inclusive havia heterossexuais na casa que eram exatamente assim. No entanto, em um bololo tirado sabe-se lá de onde, isso serviu de motivo para que muitos gays, leitores deste site, criticasse os brothers coloridos desta edição. Dizendo não se sentirem representados por eles.

Mas quem falou em representação? A única obrigação dos participantes do reality era representarem a si mesmos, quando muito, um papel dentro do jogo. Aí o público se identifica ou não. Um exemplo é que nenhuma twitteira alegou ser ou não ser  (mal) representada por Tessália, um negro por Uilliam ou uma doutora por Elenita. Alguns homossexuais reclamaram de seus "representantes".

Curioso. Quando um gay aparece em evidência na mídia ele logo vira um representante. Héteros ou homos não enxergam ali um profissional ou uma pessoa  e sim um gay. Ponto. Isso se dá porque desde pequeno somos ensinados que homem tem que gostar de mulher, o menino de azul e a menina de rosa e que são paulinos são "bambis".

Qualquer coisa que fuja desta "normalidade" é tachada de diferente, exótico e desperta tanta reações adversas. Isso tem um nome: chama-se heteronormatividade. Os espaços sócio-midiáticos são ocupados por uma esmagadora maioria hétero. É surgir um gay que essa maioria sente-se ameaçada.

Todos os holofotes voltam-se pra bicha. Um exemplo disso são as novelas e a repercussão dos personagens gays. No próprio Big Brother, os homossexuais deveriam ser só mais um entre os participantes. Não são.

Mas voltando a vaca fria. Há muito mais a se debater sobre a homofobia de Dourado, seu "orgulho hétero", ou sua infeliz declaração de que homens héteros não pegam Aids transando com mulher. Foi a partir daí que, pelo menos para boa parte do público, ele perdeu um pouco de seu brilho.

De novo, alguns caíram matando em cima do rapaz. Como prova do caráter midiático do BBB, Dourado virou um mártir da luta contra a Aids. Como se todos estivessem usando camisinha, ninguém fizesse bareback e a epidemia estivesse quase a zero, né?

Não bastasse isso, a notícia de que um take do pênis do rapaz foi exibida foi campeã de acessos na semana em que foi repoduzida, com quase a totalidade dos comentários querendo, exigindo, ver a neca do Dourado. Um rapaz chegou até a afirmar que isso independia de qualquer homofobia ou declaração digna de ser punida porque "pau tem vida própria".

Algumas semanas depois quando ele foi incluído em uma galeria de vídeos com outros brother tomando banho, fomos criticados por alguns "menos afoitos", digamos. Enfim, vá entender. Como dizer que a sociedade é homofóbica se gays fazem parte desta sociedade e, a exemplo de ignorarem a homofobia, não se importam com ela. Como cobrar de outros algo que nem nós fazemos?

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