Desembargadora do TRT-23 relatou abordagem em supermercado de Cuiabá e reacendeu debate sobre racismo estrutural. Entenda.
Adenir Carruesco, desembargadora federal do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, virou assunto nesta terça-feira, 20 de maio, após relatar nas redes sociais um episódio de racismo vivido em um supermercado de Cuiabá. Segundo a magistrada, uma cliente a abordou de forma insistente como se ela trabalhasse no local, o que a levou a refletir sobre como pessoas negras ainda são associadas automaticamente a posições de serviço no Brasil.
O nome de Adenir Carruesco entrou em alta no Google Trends porque o relato tocou em um ponto sensível da vida cotidiana brasileira: o racismo estrutural que atravessa espaços comuns, inclusive quando a vítima ocupa um cargo de poder. A repercussão também ganhou força porque a própria desembargadora transformou a experiência em uma crítica pública direta à lógica social que, nas palavras dela, insiste em negar à população negra lugares de prestígio e autoridade.
O que aconteceu com Adenir Carruesco em Cuiabá?
De acordo com o relato publicado pela magistrada, a situação ocorreu em um domingo, depois de sua caminhada matinal. Ao passar por um supermercado da capital mato-grossense, ela foi interpelada por uma senhora que queria informações sobre produtos e sobre onde encontrá-los nas prateleiras.
No vídeo divulgado, Adenir afirma que a abordagem não foi um caso isolado de confusão banal, mas a reprodução de uma lógica social profundamente enraizada. Segundo ela, para aquela cliente parecia natural presumir que uma mulher negra estivesse ali para servi-la. A desembargadora resumiu essa percepção com uma frase forte: sem a toga, disse, ela passa a ser vista “como mais um corpo preto”.
A magistrada também destacou que o problema não está apenas na atitude individual daquela mulher, mas no sistema de referências que o senso comum brasileiro aprendeu a reproduzir. Em sua avaliação, essa lógica associa pessoas negras ao trabalho de servir e as afasta simbolicamente de espaços de poder, como o Judiciário.
Por que esse relato repercutiu tanto?
A força do depoimento está justamente no contraste entre a posição institucional de Adenir Carruesco e a forma como ela foi percebida fora do ambiente profissional. Ao narrar que, sem os símbolos da função, continua sendo lida socialmente a partir da cor da pele, a desembargadora expôs uma ferida conhecida por milhões de brasileiros negros.
No relato, ela observa que pessoas negras seguem sub-representadas em instâncias superiores do poder e que a presença de mulheres negras nesses espaços é ainda menor. Essa fala dialoga com um debate mais amplo sobre desigualdade racial nas instituições brasileiras, inclusive no sistema de Justiça, historicamente marcado por baixa diversidade em seus postos mais altos.
O caso também mobiliza atenção porque mostra como o racismo nem sempre aparece em forma de insulto explícito. Muitas vezes, ele se manifesta como expectativa social: quem pode mandar, quem pode julgar, quem pode ocupar determinado lugar e quem supostamente nasceu para servir. É justamente esse mecanismo silencioso que a desembargadora denunciou.
O que esse debate diz ao público LGBTQ+?
Para a comunidade LGBTQ+, especialmente para pessoas negras, o episódio tem uma camada adicional de identificação. Isso porque a discriminação no Brasil costuma operar de maneira interseccional: raça, gênero, classe e sexualidade frequentemente se cruzam na definição de quem é visto como legítimo em determinados espaços.
Homens gays negros, pessoas trans negras e lésbicas negras, por exemplo, conhecem bem esse tipo de leitura automática do corpo, em que a sociedade projeta estereótipos antes mesmo de ouvir nome, profissão ou trajetória. Quando Adenir Carruesco denuncia que a estrutura precisa ser desmontada “um domingo de cada vez”, ela oferece uma chave de leitura que conversa com outras lutas por dignidade e reconhecimento.
Segundo a Constituição Federal de 1988, o racismo é crime inafiançável e imprescritível. Na prática, porém, episódios de discriminação ainda aparecem no cotidiano sob formas naturalizadas, o que reforça a importância de relatos públicos como esse para ampliar consciência social e pressionar instituições a enfrentar o problema de forma mais efetiva.
Na avaliação da redação do A Capa, a fala de Adenir Carruesco tem impacto porque desmonta a fantasia de que prestígio profissional basta para blindar pessoas negras do racismo. Não basta celebrar diversidade em campanhas e discursos: o Brasil ainda precisa rever, na vida real, quem reconhece como autoridade, inteligência e poder. Para um país que se diz plural, esse é um teste básico de democracia.
Perguntas Frequentes
Quem é Adenir Carruesco?
Adenir Alves da Silva Carruesco é desembargadora federal do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região, com atuação em Mato Grosso.
O que aconteceu no supermercado de Cuiabá?
Segundo o relato da magistrada, uma cliente a abordou como se ela fosse funcionária do estabelecimento, episódio que ela interpretou como expressão de racismo estrutural.
Por que o caso ficou em alta no Google?
Porque o depoimento viralizou ao expor, de forma direta e simbólica, como pessoas negras ainda são associadas a lugares subalternizados mesmo quando ocupam cargos de poder.
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