Cantora desafia tradições ao dar ritmo caribenho às obras do avô Dorival Caymmi
Alice Caymmi, cantora e compositora carioca, mergulha fundo na obra do avô Dorival Caymmi para renovar e expandir o legado da música brasileira, trazendo uma perspectiva que abraça a latino-americanidade com ritmos caribenhos e contemporâneos. Em seu novo álbum, ela desconstrói a reverência tradicional aos sambas praieiros e sambas-canções que marcaram a carreira do patriarca, nascido há 112 anos, para apresentar um tributo vivo, pulsante e cheio de ousadia.
Uma releitura que ultrapassa fronteiras
Ao invés de simplesmente revisitar a brasilidade óbvia e os clássicos sambas de Dorival, Alice opta por iluminar o lado menos explorado do compositor: sua conexão com o universo musical latino-americano. Em vez do samba, o álbum traz influências de reggae, reggaeton, salsa e calipso, criando uma atmosfera que conecta o cancioneiro baiano às batidas de Cuba, Jamaica, Porto Rico e Trinidad e Tobago.
Essa escolha artística traz uma nova dimensão ao legado de Dorival, como se sua música atravessasse o Atlântico e dialogasse com ritmos e culturas que, embora próximas, sempre foram pouco associadas ao universo tradicional do compositor. O resultado é um tributo que ressoa com as tendências musicais atuais, aproximando Caymmi de nomes como Bad Bunny, Anitta, Maluma e até Pabllo Vittar, com quem Alice mantém uma parceria que desafia as expectativas do clã familiar.
Desconstrução e feminismo na música
O álbum de Alice não apenas questiona o repertório e estilo do avô, mas também desafia o conservadorismo musical que permeia a história da MPB e da música popular brasileira. Ela incorpora elementos do rap, do dub jamaicano e do candomblé caribenho, transformando cada faixa em uma celebração da diversidade e da contemporaneidade.
Essa atitude de desconstrução vai além da música: é também uma afirmação feminista e generacional. Alice, neta rebelde, assume a liberdade de reinterpretar a obra familiar sem a reverência tradicional, mas com profundo respeito pela potência cultural da obra de Dorival. É uma forma de homenagear a tia Nana Caymmi, que sempre manteve uma postura mais tradicional, e ao mesmo tempo afirmar sua própria voz e identidade artística.
O legado de Dorival como orixá da música
O trabalho de Alice transforma Dorival Caymmi em um verdadeiro orixá musical, fundindo elementos afro-baianos, caribenhos, portugueses e latino-americanos em um só corpo sonoro. As faixas ganham sopros ensolarados, coros em chamado e resposta, batidas de ijexá e guitarras havaianas, criando uma paisagem sonora que é ao mesmo tempo ancestral e moderna.
Essa releitura audaciosa resgata a contemporaneidade do compositor, que muitas vezes foi associado apenas a uma imagem estática e tradicional da música brasileira. Alice mostra que Dorival pode ser reinventado, vivido e celebrado por novas gerações que buscam identidade e pertencimento em uma cultura cada vez mais plural e globalizada.
O álbum, portanto, é mais do que uma homenagem familiar: é uma declaração de amor à música como espaço de transformação, diálogo e resistência. Uma obra que convida a comunidade LGBTQIA+ e todos os amantes da diversidade cultural a se reconhecerem nas múltiplas camadas do Brasil e da América Latina.
Ao trazer ritmos caribenhos para as canções de Dorival Caymmi, Alice Caymmi não apenas mantém viva a chama da música brasileira, mas a ilumina com cores e sons que refletem a riqueza e a pluralidade da nossa identidade cultural. Sua ousadia artística é um convite para que todos celebremos a música com liberdade, paixão e orgulho.
Esse movimento de reinvenção cultural é essencial para que a música brasileira continue se renovando e dialogando com as novas gerações, especialmente dentro da comunidade LGBTQIA+, que encontra na arte uma poderosa ferramenta de expressão e pertencimento. Alice Caymmi nos mostra que respeitar o passado não significa aprisioná-lo, mas sim permitir que ele floresça em novas formas, cores e ritmos.
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