Le Cercle, referência cultural queer em Besançon, é alvo de denúncias e perde apoio da Rodia
Em meio a uma onda de denúncias que abalam a cena cultural queer de Besançon, a associação Le Cercle enfrenta um boicote intenso desde 14 de dezembro. Fundada em 2016, Le Cercle é conhecida por organizar eventos culturais voltados para a comunidade LGBTQIA+, especialmente a cena queer da cidade francesa. Porém, recentemente, a instituição foi acusada de transfobia, desvio de recursos, ameaças e práticas autoritárias, o que gerou um movimento massivo de repúdio nas redes sociais, envolvendo artistas e antigos colaboradores.
O estopim: um show e o afastamento da Rodia
O ponto de partida do conflito foi o anúncio de um show coorganizado entre Le Cercle e a casa de shows Rodia, com a participação da drag queen Piche, conhecida por sua atuação no programa Drag Race France e pela performance nos Jogos Olímpicos. Após a divulgação, diversos comentários pedindo o boicote ao evento e à associação viralizaram, surpreendendo a equipe da Rodia, que desconhecia as acusações. Em resposta, a Rodia decidiu retirar Le Cercle da organização do show, mantendo o evento com a artista.
Acusações e vozes da comunidade
Uma conta no Instagram chamada Voix Bisontines surgiu para reunir relatos de antigos membros e artistas que colaboraram com Le Cercle. Entre as denúncias, destacam-se alegações de transfobia, especialmente pelo “mégenrage” (uso incorreto dos pronomes) por parte da direção, consumo habitual de drogas pesadas dentro da associação e até desvios de verba. O diretor artístico, Corentin Germaneau, nega todas as acusações, esclarecendo que não há registros oficiais ou queixas judiciais contra a associação.
Monopólio e exclusão na cena cultural queer
Além das denúncias, a conta Voix Bisontines também critica o que considera um monopólio da associação sobre os eventos queer em Besançon, dificultando que artistas dissidentes tenham espaço para se apresentar. Segundo Mercutio, drag-king e idealizador do perfil, essas tensões já circulavam no meio artístico há anos, mas nunca foram debatidas publicamente, o que motivou a criação do canal para dar voz às reclamações.
Resposta da direção de Le Cercle
Corentin Germaneau reconhece que as críticas levantam questões importantes, mas ressalta a necessidade de diálogo e mediação para resolver os conflitos. Ele pede que a comunidade e os envolvidos busquem conversas respeitosas para construir pontes e superar rancores. Sobre as acusações de transfobia, o diretor artístico afirma que nunca houve má intenção e que já pediu desculpas às pessoas afetadas, comprometendo-se a evitar que situações assim se repitam. Quanto aos problemas financeiros, ele admite atrasos em pagamentos, mas nega desvios ou irregularidades.
Um apelo por diálogo e transformação
O momento delicado vivido pela associação Le Cercle revela tensões profundas dentro da cena cultural e social LGBTQIA+ local, especialmente no que diz respeito à representatividade e à inclusão das pessoas trans. A crise também expõe a importância de espaços seguros, transparentes e acolhedores para a diversidade, bem como a necessidade de escuta ativa e processos restaurativos diante de conflitos internos.
Para a comunidade LGBTQIA+, o episódio é um lembrete sobre os desafios que ainda persistem na luta por visibilidade e respeito, mesmo dentro dos próprios espaços dedicados a ela. O impacto do boicote no panorama cultural de Besançon evidencia como questões de poder, reconhecimento e justiça social são centrais para fortalecer as redes de apoio e solidariedade.
Mais do que uma crise institucional, o caso do Le Cercle convida a uma reflexão maior sobre o que significa construir coletivos verdadeiramente inclusivos e responsáveis. É uma oportunidade para a comunidade LGBTQIA+ se unir, dialogar e avançar em direção a espaços que acolham todas as identidades, sem exceções ou violências internas.