Influencers LGBTQIA+ revelam o brilho e o peso do conteúdo performático que mistura consumo e identidade
Nos últimos anos, um tipo de conteúdo conquistou as redes sociais: os vídeos “Get Ready With Me” (GRWM) e “O que tem na minha bolsa”. Eles parecem nos convidar para um momento íntimo e espontâneo, revelando detalhes do dia a dia de influenciadores e celebridades. Mas, por trás dessa aparente naturalidade, esconde-se uma performance cuidadosamente construída, que mistura consumo, classe social e uma tentativa de criar uma conexão com o público.
A ilusão da espontaneidade e o poder da curiosidade
Quem nunca sentiu aquela curiosidade quase irresistível de espiar o que uma pessoa carrega na bolsa? Esses vídeos exploram exatamente isso: o desejo de acesso ao mundo privado dos outros. Ao mostrar objetos pessoais – de batons a livros, de guarda-chuvas a produtos de beleza – esses conteúdos criam uma narrativa sobre prioridades, estilo de vida e até mesmo valores.
Para a comunidade LGBTQIA+, que muitas vezes busca referências e representações que dialoguem com suas vivências, esse tipo de conteúdo pode ser um espelho tentador. No entanto, é essencial perceber que nem tudo é o que parece. As bolsas de milhares de reais carregadas por artistas famosas, recheadas de produtos de marcas que patrocinam, não refletem uma rotina comum, mas uma imagem cuidadosamente lapidada para aproximar e fascinar.
GRWMs: entre a autenticidade e a publicidade disfarçada
Os vídeos GRWM, em que influenciadores mostram sua rotina de beleza, conquistaram fãs por parecerem um bate-papo íntimo e real. No entanto, muitos deles são verdadeiros catálogos de produtos, promovendo linhas de cosméticos e marcas associadas. Celebridades como Olivia Rodrigo e Millie Bobby Brown exemplificam essa tendência, onde a rotina de cuidados é, na prática, uma vitrine publicitária.
O que fica de fora é o trabalho invisível – procedimentos estéticos, retoques e recursos que não aparecem nas câmeras, mas que sustentam a imagem perfeita. Isso cria uma expectativa difícil de alcançar para quem assiste, especialmente jovens LGBTQIA+ que buscam construir suas identidades e autoestima.
O impacto emocional e social dos vídeos performáticos
Além de alimentar o desejo por produtos e estilos de vida, esses vídeos reforçam um padrão de consumo e status que nem sempre é acessível. A pressão para se enquadrar nesse padrão pode afetar a saúde mental, gerando ansiedade e insegurança, sobretudo entre pessoas LGBTQIA+ que já enfrentam desafios de aceitação e pertencimento.
Em épocas festivas, vídeos como “Christmas Hauls” intensificam essa dinâmica, mostrando pilhas de presentes caros que criam uma sensação de insuficiência e competição, tanto para jovens quanto para suas famílias.
Consumo consciente e representatividade verdadeira
É fundamental que a comunidade LGBTQIA+ e todas as pessoas que consomem esses conteúdos aprendam a separar a performatividade da realidade. Embora seja encantador acompanhar o brilho das celebridades, reconhecer o caráter publicitário e a construção artificial dessas narrativas ajuda a preservar a autoestima e a valorizar a diversidade de estilos e realidades.
Mais do que isso, é um convite para que influencers e criadores abracem uma representatividade genuína, que dialogue com as múltiplas faces da comunidade LGBTQIA+, sem reforçar padrões inalcançáveis ou incentivar o consumismo desenfreado.
Os vídeos “Get Ready With Me” são um espelho fascinante da cultura digital atual, que mistura desejo, identidade e mercado. Para o público LGBTQIA+, compreender esse fenômeno é uma forma de resgatar o poder da autenticidade e construir narrativas mais inclusivas e empoderadoras.
Por trás do brilho das câmeras, existe um universo complexo de expectativas e realidades. A comunidade LGBTQIA+, com sua riqueza de histórias e expressões, pode transformar esse cenário, valorizando a diversidade verdadeira e rompendo com a pressão do consumo performático.