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covid-19 — memória crítica sobre mortes recua

covid-19 — memória crítica sobre mortes recua

Pesquisa da Unifesp mostra queda na responsabilização pela gestão da pandemia e vacinação ainda abaixo do histórico; entenda

O tema covid-19 voltou a ganhar buscas no Brasil nesta terça-feira (19), após a divulgação de uma pesquisa da Unifesp que mostra mudança importante na percepção pública sobre a pandemia. O levantamento, realizado entre 26 de fevereiro e 1º de março de 2026 com 1.500 pessoas, indica que caiu de 62% para 40,5% a parcela de brasileiros que considera que outra postura do governo Jair Bolsonaro teria reduzido as mortes por Covid.

Os dados ajudam a explicar por que o assunto reapareceu entre os mais pesquisados: além de mexer com a memória recente do país, a pesquisa toca em dois pontos ainda muito sensíveis — responsabilização política e confiança nas vacinas. Em um Brasil que perdeu centenas de milhares de vidas para o coronavírus, o estudo sugere que a leitura pública sobre aquele período está ficando menos ancorada em evidências e mais atravessada pela disputa ideológica.

Por que covid-19 voltou ao centro do debate?

Segundo o estudo do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência, da Unifesp, houve uma queda de 21,5 pontos percentuais em três anos entre os que dizem que uma conduta diferente do governo federal teria evitado mortes. Hoje, 40,5% respondem que sim, 28,6% dizem que não e 30,9% afirmam não saber.

Em 2023, o cenário era bem diferente: 62% avaliavam que outra postura teria reduzido os óbitos, sendo 48,3% com a percepção de que seriam “muito menos mortes” e 13,7% “um pouco menos”. Naquele momento, apenas 13% diziam que não, e 11,5% não sabiam responder.

A pesquisa aponta que a principal variável por trás dessa mudança é a divisão política. Entre eleitores de Lula, 63,5% ainda dizem que outra postura do governo Bolsonaro teria diminuído as mortes. Entre eleitores de Bolsonaro, esse índice cai para 20,8%. O recorte ideológico também pesa: entre pessoas de esquerda, o “sim” chega a 71%; entre as de direita, fica em 15,6%.

Para Pedro Arantes, professor da Unifesp e coordenador do levantamento, a pandemia passou a ser lida mais como campo de disputa política do que como um tema baseado em fatos e evidências. Ele também associa esse enfraquecimento da memória crítica ao distanciamento no tempo, à reorganização do debate público em torno de outras crises e à falta de uma política sistemática de memória sobre a tragédia sanitária.

O que a pesquisa diz sobre vacinação no Brasil?

Outro dado central do levantamento é a adesão às campanhas nacionais de vacinação, que segue em 72,1%, praticamente estável em relação a 2023. O número, porém, continua abaixo dos patamares históricos do Programa Nacional de Imunizações, que antes de 2016 chegou a registrar coberturas próximas de 100% em alguns imunizantes.

Entre os 28% que estão fora da adesão plena, cerca de 9,9% se declaram antivacina. O restante se divide entre pessoas que deixaram de se vacinar depois da pandemia e um grupo de indecisos ou indiferentes. Para os pesquisadores, esses dois últimos segmentos ainda podem ser alcançados por campanhas públicas mais consistentes.

A queda na mobilização é especialmente visível entre jovens. Na faixa de 16 a 24 anos, a adesão registrada foi de 62,9%. Entre 25 e 34 anos, de 62%. Isso representa cerca de 16 pontos abaixo da média observada entre pessoas com 35 anos ou mais. A avaliação do estudo é que o problema, nesse grupo, não é necessariamente o crescimento do núcleo antivacina, mas sim o aumento da apatia e da baixa percepção de urgência.

A pesquisa também mediu o apoio à responsabilização por eventuais crimes ligados às mortes na pandemia. Hoje, 45% são favoráveis ao julgamento de responsáveis, 27,2% são contrários e 27,8% estão indecisos. Em 2023, o apoio era maior: 51,5%. Entre pessoas com renda de cinco salários mínimos ou mais, a queda foi ainda mais forte, de 58,9% para 34,3%.

Quando perguntados sobre medidas de justiça e reparação, os entrevistados citaram com mais frequência a criação de um tribunal especial (31,1%), uma comissão da verdade (29,7%) e indenizações para vítimas e órfãos (27%). Todas essas alternativas, no entanto, perderam força em comparação com a pesquisa anterior.

O que isso significa para a saúde pública e para a comunidade LGBTQ+?

Embora o levantamento trate da sociedade brasileira como um todo, seus efeitos atingem de forma desigual grupos historicamente mais vulneráveis. Durante a pandemia, pessoas LGBTQ+, especialmente as mais pobres, negras, vivendo com HIV, em situação de informalidade ou afastadas da rede familiar, enfrentaram barreiras extras de acesso à saúde, renda e proteção social. Por isso, o enfraquecimento da memória pública sobre a Covid não é apenas um debate abstrato: ele também pode apagar quem mais sofreu.

Além disso, quando a confiança em vacinas e em políticas públicas de saúde se deteriora, populações que já dependem fortemente do SUS tendem a sentir primeiro esse impacto. A reconstrução da comunicação em saúde, com linguagem acessível e combate à desinformação, interessa diretamente à comunidade LGBTQ+, que historicamente precisou disputar espaço, acolhimento e informação qualificada dentro do sistema.

Na avaliação da redação do A Capa, a volta de covid-19 aos assuntos mais buscados revela que o Brasil ainda não resolveu como lembrar sua maior tragédia sanitária recente. Sem memória, sem reparação e sem campanhas públicas fortes, o risco é naturalizar o negacionismo e enfraquecer a confiança coletiva em ciência, vacinação e SUS — três pilares essenciais também para a proteção da população LGBTQ+.

Perguntas Frequentes

Por que covid-19 está em alta no Google hoje?

Porque uma pesquisa divulgada em 19 de maio de 2026 mostrou queda expressiva no número de brasileiros que responsabilizam a gestão Bolsonaro por mortes na pandemia.

Qual foi o principal resultado da pesquisa da Unifesp?

O estudo apontou que a parcela dos que acham que outra postura do governo teria reduzido mortes por Covid caiu de 62% em 2023 para 40,5% em 2026.

A vacinação no Brasil voltou ao nível de antes da pandemia?

Não. A adesão está em 72,1%, abaixo dos níveis históricos do PNI, que já chegaram perto de 100% em alguns imunizantes antes de 2016.


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