Dispositivo criado em São Paulo embarcou na Artemis 2 para monitorar astronautas no espaço profundo; entenda por que isso importa.
A Nasa entrou nos assuntos mais buscados no Brasil nesta terça-feira (6) após ganhar repercussão a notícia de que um dispositivo brasileiro, criado por uma startup paulista, foi usado pela tripulação da missão Artemis 2. A tecnologia, desenvolvida em São Paulo com apoio inicial da FAPESP, viajou a bordo da cápsula Orion e ajudou a monitorar sono, vigília e ritmo biológico dos astronautas durante o voo ao redor da Lua.
A confirmação oficial chegou ao engenheiro mecatrônico Rodrigo Trevisan Okamoto poucas horas antes do lançamento da missão, em 1º de abril. Segundo ele relatou à Agência FAPESP, a equipe só soube no dia da decolagem que o equipamento estava de fato a bordo, embora houvesse sinais desde o fim de 2025 de que a solução poderia integrar a Artemis 2.
Como funciona o dispositivo brasileiro usado pela Nasa?
O aparelho é um actígrafo, com formato semelhante ao de um relógio de pulso. Ele reúne acelerômetros e sensores de luz e temperatura para mapear, com precisão, os padrões de sono e vigília ao longo de dias ou semanas. Na prática, o sistema monitora a frequência e a intensidade dos movimentos do braço para inferir momentos de repouso e de atividade, registrando o comportamento circadiano do usuário.
Esse ponto é central porque o chamado relógio biológico, que dura cerca de 24 horas, depende principalmente da luminosidade para se regular. No espaço, essa referência fica comprometida. De acordo com o professor Mario Pedrazzoli Neto, da EACH-USP e especialista em cronobiologia, os astronautas podem ficar expostos a claridade ou escuridão constantes, dependendo da posição da nave em relação ao Sol.
Para lidar com isso, o dispositivo brasileiro mede não só intensidade luminosa, mas também a composição espectral da luz. São dez sensores embarcados capazes de detectar diferentes faixas, o que ajuda a entender como o ambiente afeta o corpo humano. Outro diferencial apontado por Okamoto é a medição da chamada luz melanópica, na faixa azul-ciano em torno de 490 nanômetros, conhecida por interferir na produção de melatonina e no estado de alerta.
Pedrazzoli lembra que celulares emitem luz justamente nessa faixa, o que ajuda a explicar por que telas à noite podem bagunçar o sono. Em missões espaciais, esse tipo de monitoramento ganha ainda mais peso porque a privação de sono pode causar déficits cognitivos e motores.
Por que a Artemis 2 precisou monitorar o sono da tripulação?
A missão Artemis 2 faz parte da nova fase de exploração lunar da Nasa e levou humanos ao redor da Lua pela primeira vez em meio século. Dentro da campanha, a agência criou em 2023 o projeto Archer, sigla para Artemis Research for Crew Health and Readiness, com foco em bem-estar, atividade, sono e interações da tripulação.
O objetivo é entender como um ambiente confinado como a cápsula Orion afeta o corpo e a mente em missões de espaço profundo. Isolamento, radiação, alterações na luz e até o efeito da gravidade são fatores que podem comprometer descanso e desempenho. Segundo a Nasa, os dados coletados pelo actígrafo serão comparados com testes de coordenação motora e questionários feitos antes e depois do voo.
Um detalhe curioso é que o equipamento também tem um botão de eventos, acionado de forma sincronizada em momentos marcantes da missão. Um desses registros ocorreu em 6 de abril, quando a Orion atingiu 406.777 quilômetros de distância da Terra, o ponto mais distante já alcançado por humanos, segundo a própria agência.
Da USP ao espaço profundo
A história dessa tecnologia começou em pesquisas sobre sono conduzidas no Centro de Estudos do Sono, ligado à Unifesp e financiado pela FAPESP. Os primeiros protótipos foram usados para estudar, por exemplo, o impacto do horário de verão na população. Depois, com apoio do programa PIPE-FAPESP, o projeto saiu do ambiente acadêmico e virou produto comercial.
Hoje, a startup Condor Instruments exporta 80% da produção, fabricando de 200 a 300 dispositivos por mês para mais de 40 países. O equipamento já é usado em pesquisas que vão da epidemia de miopia na Ásia ao acompanhamento de bebês prematuros em UTIs neonatais.
O que essa notícia diz sobre ciência brasileira?
O interesse em torno da Nasa cresce no Brasil não apenas pelo apelo popular das missões lunares, mas porque essa história coloca a ciência nacional em um lugar de destaque. Em vez de aparecer só como fornecedora de matéria-prima ou mão de obra, o país surge aqui como produtor de tecnologia de alta precisão validada para uma missão espacial tripulada.
Para a comunidade LGBTQ+, há também um ponto simbólico importante: ciência, inovação e futuro precisam ser espaços mais diversos, inclusivos e acessíveis. Quando uma tecnologia brasileira ganha o pulso de astronautas em uma missão histórica, isso amplia o imaginário de pertencimento para jovens LGBT+ que sonham com carreiras em pesquisa, engenharia e exploração espacial.
Na avaliação da redação do A Capa, a presença desse dispositivo na Artemis 2 mostra como investimento público em ciência pode gerar impacto global real. Em um país que ainda enfrenta cortes, desigualdades educacionais e barreiras de acesso para pessoas LGBTQ+ nas áreas STEM, ver uma inovação brasileira reconhecida pela Nasa é também um lembrete de que talento existe — o que precisa existir de forma contínua é oportunidade.
Perguntas Frequentes
O que é o actígrafo usado pela Nasa?
É um dispositivo de pulso que mede movimentos, luz e temperatura para acompanhar padrões de sono, vigília e ritmo circadiano.
Por que o sono dos astronautas é tão monitorado?
Porque alterações no descanso podem afetar foco, coordenação motora e saúde, algo crítico em missões longas e em ambientes extremos como o espaço profundo.
A tecnologia usada na Artemis 2 é realmente brasileira?
Sim. O equipamento foi desenvolvido pela startup paulista Condor Instruments a partir de pesquisas acadêmicas ligadas à USP, Unifesp e ao apoio inicial da FAPESP.
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