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Raicarlos Coelho fala sobre luta trans, PL de identidade de gênero e cyberativismo

No Dia Nacional da Visibilidade Trans, o A CAPA conversa com Raicarlos Coelho Durans, de 53 anos. Um homem trans casado com Rose Carvalho Durans, professor de Filosofia e militante do Movimento LGBT e dos direitos humanos. 

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Um homem de garra, coragem e engajamento, que optou por enfrentar a luta contra o preconceito e a favor dos direitos igualitários de cabeça erguida ao invés de se vitimizar ou se invisibilizar. 

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Ele também é membro do Conselho Municipal de Saúde do Município de Marituba-Pa, membro efetivo do Comitê Técnico de Política de Saúde Integral LGBT/MS, Coordenador Regional Norte do IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculidades) e Coordenador do Comitê Técnico de Politica de Saúde Integral LGBT/Estadual do Pará/SESPA.
 
Abaixo, uma entrevista exclusiva e especial de Luiz Uchoa com ele. Confira!
 
– Como foi assumir ser homem trans em tempos ainda mais difíceis?
 
Em minha vida tudo foi muito natural. Tinha muito aparência masculinizada e por isso não tive maiores problemas nesse período por ser homem trans.
 
– Como foi o início de sua militância política?
 
Comecei a militar aos 16 anos de idade no PCB (Partido Comunista do Brasil). Naquela época as coisas eram muito difíceis. Não se tinha acesso a textos teóricos socialistas, porque tudo era proibido, não havia liberdade para nada. Por isso a principal luta era por “liberdades democráticas”. 
 
– Conte foi militar em plena ditadura militar e ainda conciliar essa atividade com a sua vida pessoal? 
 
Fui recrutado pelo Partido Comunista do Brasil (P.C do B.). A minha vida virou um inferno, em minha casa e na Escola Técnica. Não tinha mais vida social. A minha adolescência foi perdida. As Escolas Técnicas eram militarizadas, o Diretor era um Coronel Exercito e Coordenação pedagógica das forças armadas também. Eram todos militares sem uniformes. E os professores eram informantes do SNI (Serviço Nacional de inteligência). Eu não confiava em ninguém lá. Todos eram perseguidos. O melhor era fingir. Mas a grande maioria dos alunos era muito alienada.

Penso que se já existisse rede social, e se isso fosse possível, todos ou quase todos teriam ficado mais alienados. Logo em seguida passei no vestibular de direito numa Universidade Federal. Logo, entrei no movimento estudantil universitário. A minha vida só ficava cada vez ruim. Abandonei a Universidade de vez pelo fato de que os estudantes do sexo feminino tinham de ir de saia para fazer audiências diante do juiz quando se formassem. Eu não era uma moça, e sim um moço. Desisti. Passei sem estudar mais de seis anos, e então voltei pra Universidade em 1988, agora para cursar Filosofia em outra Universidade Publica Federal. Já era a nova República, outros tempos, e vivia como eu era realmente. Naquela época a única certeza que tinha era: Sou um homem independente do que os outros pensam.

 
– Como você avalia ser homem trans no Brasil?
 
Ser um homem transexual aqui no Brasil é subverter a ordem social, médica, psiquiátrica e jurídica; também quebrar todos os paradigmas sociais e políticos, votar e pagar impostos, trabalhar, estudar e constituir uma família. E, depois, se sobrar espaço e tempo ser muito feliz, se conseguir também escapar da violência e da transfobia. É tudo isso. Posso dizer que venci todos os obstáculos até aqui, numa escala de zero á dez, estou com nota dez. Mas ainda continuo na corrida para uma vida ideal pra mim e minha família. Eu nunca desisto nunca dos meus objetivos, senão teria de desistir de mim mesmo, isso nunca.
 
– Qual a importância de se identificar como homem trans já que alega viver em sua cotidiana praticamente como um homem cis?
 
 A auto identificação é importante para a construção e a implementação de políticas publicas para este segmento da sociedade pouco conhecido. E também importante para a sociedade compreender e se adaptar com essa nova nomenclatura e esse comportamento social para auxiliar na quebra de paradigmas socioculturais do que seja identidade de gênero para assim termos mais espaço em políticas públicas e na mídia.
 
– Qual o seu trabalho no Comitê Técnico de Saúde Integral (LGBT)?
 
Raicarlos: Fazer o monitoramento no que diz respeito a execução da política publica de saúde integral no viés de Homens Trans. Fui selecionado numa seletiva simplificada de 06 currículos, uma seleção bem concorrida, este ano(2014) em junho. É isso. É uma função política. Por isso, sinto que alguns sentem em relação a mim certa desconfiança aliada com uma pitada de ciúme. Estou executando bem a função, até agora, na minha visão. Agora estamos avaliando todo o processo transexualizador, transcorridos os 12 meses de sua normatização vide a Portaria Nº 2.803, de 19. Nov. 2013, que Redefine e amplia o “Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS)”. Mas isso é tudo muito novo. Esse processo de monitoramento das políticas públicas de saúde LGBT no Brasil. Só mais lá pra frente serei melhor avaliado pelo coletivo de Homens Trans, e pelo publico alvo juntamente com o governo.
 
Em relação aos procedimentos cirúrgicos, Eu sou cem por cento SUS – Sistema Único de Saúde (MS), porque sem demandas e parâmetros não há política publica eficiente, e sem protagonismo também não. Já tem muita gente na lista de espera dos quatro Centros de Referencias Nacionais prontos para executar os procedimentos cirúrgicos. E depois de passado um ano do advento da Portaria, o Ministério irá credenciar outros Centros de Excelências para executar os procedimentos, como diz a Portaria.

– Há outras demandas além do processo transexualizador?
 

Sim há, Mas não se tem protagonismo político suficiente para tanto. Para termos acesso a todas as políticas publicas necessárias para restabelecer a nossa dignidade e assim sermos cidadãos com seus direitos assegurados precisamos que mais homens trans se envolvam na luta e também que os governos estaduais, municipais e federais estejam verdadeiramente comprometidos colocarem em prática as demandas levadas pelos movimentos sociais organizados através de programas sociais que ofereçam emprego e renda a essa parcela da população.
 
Não nego que o processo transexualizador seja uma grande conquista. Porém, ele é apenas uma parte dessa luta que é longa e demorada, e isso se deveu mais ao esforço das travestis e mulheres transexuais. Pegamos o processo praticamente pronto eu fui um dos poucos homens trans que estive envolvido desde sua gênese debatendo e abrindo concessões senão, não teria sido assinado pelo Ministro da Saúde (MS), e publicado no DOU (Diário Oficial da União).
 
As demandas são mais amplas, além da dignidade e do respeito, tem a Política Nacional Integral de Saúde para LGBT que nos inclui como um todo no antes e no pós-cirúrgico são extremamente importante, porque sem as readequações fenotípicas, externas e internas não pode coexistir um homem trans de verdade, verdadeiro e legitimo.
 
– Poderia fazer uma comparação da militância na época da ditadura militar para os dias atuais?
 
Saudades daquele tempo, digo da militância! Era tudo mais prazeroso e as pessoas gostavam de protagonizar as lutas políticas. Hoje, muitos indivíduos que não leram quase nada, não viveram quase nada, não compreenderam nada, e não entendem o processo dialético da luta política, se atrevem a dar aulas memoráveis com conceitos que eles mal compreendem. Ainda pensam que têm o direito de ensinar á aqueles quem tiveram mais tempo de militância. Uma tragédia! 
 
Acredito que faltam os itens essenciais para uma militância real que são: falta de critica, de auto critica, paixão na luta, humildade, seriedade, empenho, espírito de coletividade. Muitos não encararam a pauta de enfrentamento de classes isolam-se em redes sociais. Isso é péssimo pra todas as lutas por não haver mais protagonismo político, e empoderamento político. 
 
– Qual é a sua opinião a respeito do cyberativismo?
 
É uma falácia. Nem sei o que é bem isso. Mas compreendo. Nada substitui a luta política, que só se materializa com o calor humano. E a militância é a troca, intercambio debate e protagonismo. A meu ver, não há progresso sem protagonismo político e militância orgânica. Sou pragmático nesse ponto. E também não se enfrenta o Governo e o estado via internet, virtualmente. Alguns já o defendem como ferramenta de enfrentamento. Para mim, trata-se de uma grande mentira.
 
– Em que medida a aprovação o projeto de lei de “Identidade de gênero contribuirá para a vida de homens trans, mulheres transexuais, travestis e transgêneros?
 
Primeiro essa ideia já foi demarcada no projeto do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, sintetizado na ideia do “Estatuto da Diversidade”, que teve como organizadora a Dra. Berenice Dias, lá do Rio Grande, que ela bem deve conhecer, e teve anos de muito dialogo com o segmento LGBT, estudo, pesquisa e atuação jurídica neste meio, teve e tem o meu apoio. O projeto de lei “Identidade de gênero” das pessoas transexuais é uma ideia parida da ideia original de uma lei já em vigor na Argentina, aqui encampada por um grupo de transexuais que não discutiram com ninguém, ou melhor, com os sujeitos mais importantes do meio. E não tem nenhuma chance de ser aprovado, não temos lastro de apoio no Congresso Nacional para aquele projeto. Ainda mais apresentado pelo PSOL. Nem a ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) tampouco a ANTRA (Associação Nacionais de Travestis e Transexuais) tem acordo com nessa ideia.

E os homens trans não tem força nenhuma para isso. Eu tenho opinião que o “Estatuto da Diversidade” seria mais completo, e mais adequado para realidade conjuntural de homens trans, esse teria mais chance que já está sendo apresentado pela OAB. Mas de qualquer modo, isso na prática seria muito bom, excelente, se fosse possível. Pois a realidade política não permite, as correlações de forças no Congresso Nacional estão muito fora do compasso. A importância da lei, como seria uma lei complementar, adiantaria em muito a nossa vida civil em todos os aspectos, sendo o principal deles, a retificação de pré-nome civil e a mudança de gênero de forma automática, como também alcançaria outros direitos. 

 
– Quais conselhos você daria para homens trans que desejam atuar no movimento social?
 
Raicarlos: Antes de tudo apaixone-se pela luta, seja humilde, sério e empenhado e tenha espírito de equipe. Busque conhecer a fundo a história do movimento LGBT e converse bastante como militantes veteranos que possam lhes orientar sobre como iniciar a sua atuação. Seguindo esses passos, vocês logo estarão preparados para serem líderes futuramente. 
 

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