A verdadeira face da libertação LGBTQIA+ na maior celebração queer da África do Sul em meio a protestos e controvérsias
Na última edição do Pride de Joanesburgo, a mais antiga celebração LGBTQIA+ da África, completando 36 anos, os holofotes não estiveram apenas no brilho das paradas e festas, mas também nas tensões que revelam uma luta muito mais complexa por espaço, voz e pertencimento dentro da comunidade queer.
Historicamente, o Joburg Pride nasceu de mãos pioneiras como a da ativista Dr. Beverley Ditsie, que ajudou a pavimentar o caminho para a visibilidade e direitos da população LGBTQIA+ na África do Sul. No entanto, nos últimos anos, a festa oficial tem sido duramente criticada por priorizar patrocínios e espetáculos em detrimento das raízes ativistas e políticas que deram origem ao movimento.
Entre a luta e a crítica: a voz das periferias queer
Em 2025, uma carta aberta assinada por coletivos como South African Jews for a Free Palestine, Queers for Palestine e Save Our Sacred Lands convocou um boicote à Pride, denunciando que o evento teria se tornado palco de “rainbow-washing” – o uso da causa LGBTQIA+ para encobrir ou silenciar outras opressões, como o apoio tácito a corporações envolvidas em injustiças globais. O protesto destacou o histórico de exclusão, como o episódio de 2012 quando ativistas foram impedidos de realizar um minuto de silêncio em memória às mulheres lésbicas e pessoas trans negras assassinadas.
Essa convocação para uma resistência que vestisse preto e cantasse por causas globais – Palestina, Sudão, Congo – reacendeu debates internos e revelou como a luta queer não é monolítica. A polarização expôs a exclusão que muitas pessoas negras, pobres e periféricas ainda enfrentam dentro dos próprios espaços LGBTQIA+, que nem sempre são seguros ou acolhedores para todas.
Espaços seguros? O desafio da interseccionalidade dentro da comunidade
Dentro da comunidade queer, existem dinâmicas de poder, privilégios e opressões que se refletem em práticas de exclusão, nepotismo e até violência emocional. Um exemplo citado são grupos como o “Queer Fight Club”, que, embora se apresentem como espaços alternativos, reproduzem desigualdades, privilegiando corpos e vozes protegidos pela classe e pelo patrimônio.
Experiências traumáticas dentro desses ambientes mostram como corpos negros são desvalorizados, usados e descartados. Isso revela uma contradição dolorosa: muitos que clamam por justiça social lá fora acabam perpetuando violências internas, silenciando e desconsiderando quem está mais vulnerável.
O poder do coletivo e a resistência da alegria
Diante desse cenário, a reação de parte da comunidade foi criar alternativas que celebrassem a diversidade e a solidariedade sem abrir mão da crítica e do ativismo. A organização House of Ditsie, liderada por Bev e Nicole Ditsie, promoveu um piquenique no Zoo Lake, oferecendo um espaço onde a alegria, a presença autêntica e o amor próprio se tornaram atos profundamente políticos.
Com a presença de autoridades comprometidas com os direitos humanos e de jovens lideranças queer, o encontro fugiu da lógica do espetáculo corporativo para reafirmar que o verdadeiro pride pertence a todas as vozes, principalmente às que historicamente foram silenciadas ou marginalizadas.
Reflexões para um ativismo mais ético e inclusivo
O debate em torno do Pride de Joanesburgo em 2025 evidencia a necessidade urgente de construir espaços que acolham as múltiplas identidades e experiências dentro do universo LGBTQIA+. Livros como Love in a F*cked-Up World, de Dean Spade, propõem que a prática do amor e do cuidado nas relações íntimas e coletivas pode ser um laboratório para aprender a conviver com conflitos e imperfeições, sem cair na negação ou na punição extrema.
Ao reconhecer que todas as pessoas causam e recebem danos, o ativismo pode caminhar para formas mais compassivas e efetivas de diálogo e reparação, fortalecendo uma comunidade que não exclui, mas acolhe e valoriza todas as suas cores e histórias.
Em tempos em que o corporativismo ameaça diluir as causas e a luta por direitos, o exemplo do Pride alternativo no Zoo Lake é um lembrete poderoso: a resistência queer também é feita de amor, alegria e o direito inalienável de existir em liberdade e plenitude.
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