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Grupos, o sentimento de pertença e a Era das causas

Em meio a polêmicas sobre o Enem de 2015 e o programa de chefs de cozinha crianças e pré-adolescentes sendo assediadas na internet é possível observar um fenômeno: ao mesmo tempo em que movimentos progressistas e politizados se articulam para combater violências de gênero, preconceitos e discriminações (por etnia, cor de pele, orientação sexual, identidade de gênero, etc), observa-se o agrupamento de pessoas que se reconhecem entre si pela defesa de ideias preconceituosas, violentas e discriminatórias.
 
Estes agrupamentos, amplificados por redes sociais, acabam por funcionar como bolhas dentro das quais é possível falar o que se pensa ou até mesmo partir para atos de agressão e exclusão sem que os seus membros tenham medo de serem excluídos socialmente. Ao contrário, sentem-se respaldados pelo grupo. Há uma identificação entre os integrantes do grupo (identificação horizontal) que se dá pela gravitação ao redor de um conjunto de ideias e visão de mundo, sendo bastante comum que exista um porta-voz ou líder com o qual os demais membros se identificam (identificação vertical). Cria-se, desta forma, um grupo complexo e coeso, capaz de atos que sozinhos não fariam. Freud bem descreveu isto em Psicologia das massas e análise do Eu (1921).
 
A formação de grupos e as identificações horizontais e verticais não necessariamente são ruins. Identificar-se com o outro é algo que faz parte da constituição humana. Se disso resultará algo  bom ou ruim dependerá da forma desta identificação, do conteúdo destes ideais e dos atos engendrados a partir daí.
 
 
Feito este preâmbulo, gostaria de abordar na coluna deste mês o sentimento de pertença. Fazer parte de um grupo social, encontrar nele respaldo, apoio, conforto e segurança, bem como sustentação para a imagem que se tem de si próprio e da forma como se vê o mundo são elementos importantes na vida de um ser humano, em especial na infância e adolescência, épocas em que a pessoa está se constituindo.
 
Acontece que na sociedade ocidental atual este sentimento de pertença tem se tornado cada vez mais frágil. Um exemplo: pessoas que tem seu círculo social restrito a colegas de trabalho, quando perdem o emprego podem cair em solidão e isolamento profundos, situação bem angustiante e que mostra bem o quanto aspectos da vida social e pública se reduzem a apenas um local ou atividade, neste exemplo o trabalho.A multiplicidade de eventos, a rapidez da vida social, das inovações, a falta de tempo e de espaços sociais parecem contribuir bastante para deixar este sentimento de pertença cada vez mais frágil. 
 
E o que podemos observar dos grupos citados no começo do texto? Ora, são pessoas que muitas vezes sequer se conhecem, com profissões diferentes, frequentando locais diversos, mas que se percebem acolhidas e respaldadas por outros, fazendo parte de um grupo social.
 
Não seria um exagero afirmar que rumamos para a constituição de uma sociedade em que fazer parte de uma militância (seja a favor de igualdades, liberdades, alteridades e solidariedade, seja em favor de violência, discriminações e preconceitos) será cada vez mais um elemento definidor de identidades. O lema seria: “Sou a causa que defendo!”
 
Aí o leitor pode pensar: “Ah, então basta que todos se inclinem para causas boas, solidárias, libertárias, que o mundo será um lugar melhor, não é?” Aí esbarramos em alguns probleminhas. Um deles é o narcisismo das pequenas diferenças. Para que um grupo se constitua como grupo é preciso  mais um elemento: o externo, o de fora, o que está para o lado de lá. Este elemento externo é o que é percebido como sendo diferente, oposto ou contrário em relação aos aspectos em torno do qual o grupo se constituiu. E se não houver este elemento? Bom, aí começam a aparecer rachas internos: as mínimas diferenças dentro do grupo começam a causar incômodos, brigas e em alguns casos o rompimento em dois grupos ou mais, que são parecidíssimos, mas com mínimas diferenças entre si que os definem e os opõem. 
 
 
Outro ponto é que a agressividade é parte do ser humano e não é possível extirpá-la. Até mesmo porque isso não é desejável. A agressividade se bem utilizada por ser muito boa. 
“Então, que fazer?” pode perguntar o leitor. Esta não é uma resposta fácil. Vou esboçar duas possíveis estratégias que podem servir para responder ao menos em parte a esta questão: criar espaços sociais livres, em que a convivência entre as pessoas é valorizada e não depende nem do trabalho nem de uma religião, em que é possível estar com o outro de forma civilizada. E sociedade civilizada é aquela na qual impera uma lei que faz a mediação entre as pessoas, todos estando a ela submetidos. A civilidade é o que permite que a lei da selva não impere, com o mais forte engolindo e matando o mais fraco. 
 
Outro ponto: sociedades acentuadamente individualistas acabam criando um vácuo facilmente preenchido por algum grupo ou instituição que dê este sentimento de pertença. Não é à toa que um país que brada tanto pelo individualismo como os EUA tenha tantos grupos religiosos extremistas capazes de atos de barbáries, como ir a funerais xingar os velados ou impedir que outros tenham acesso a direitos básicos. Tampouco é coincidência que por lá prolifere cada dia mais a criação dos mais variados agrupamentos em torno de causas específicas.É a partir de um mínimo de seguridade social e de instituições democráticas acolhedoras que é possível menos pessoas se verem tentadas a aderir cegamente a uma causa (seja ela boa ou ruim). 
 
Escolhi este tema porque vejo que é comum chegar como demanda no consultório jovens LGBTTs que sentem um medo imenso de serem jogados no ostracismo caso se assumam. Conviver com este medo continuamente pode tornar quase irresistível aderir a grupos que prometam acolhimento, e alguns destes grupos podem não ser nada bem intencionados.
 
Leandro Salebian é psicólogo (CRP 06/99001) graduado pelo Instituto de Psicologia da USP. Já trabalhou na área da saúde mental em um CAPS Adulto e hoje se dedica exclusivamente ao trabalho em consultório particular. Segue sua formação estudando autores da Psicanálise e tem um olhar crítico e atento às questões de gênero e diversidade sexual. Acesse também seu site
 

 

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  1. isso explica a proliferação de igrejas caça-niquel que vivem de explorar a miseria alheia e, de quebra, disseminam o ódio pois eles precisam criar um inimigo pra combater.

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